Expressão da Terra

Ela

Existe nela um jeito antigo de esperar.
Não é uma espera aflita. É dessas esperas que aprendem a conviver com o tempo, como quem deixa uma chaleira no fogo baixo e vai cuidando da vida. Ela me viu partir muitas vezes. E me viu voltar outras tantas, trazendo na mala os mesmos defeitos, algumas rugas novas e cansaços que a gente não declara.
Conhece meus passos antes mesmo de eu chegar ao portão.
Sabe quando eu estou feliz pela maneira como eu entro. Sabe quando a tristeza vem comigo quando eu demoro alguns segundos antes de bater na porta.
Ela sempre soube.
Guarda minhas versões antigas como quem conserva fotografias numa caixa de sapato. Para ela eu continuo sendo aquela criança, correndo com o triciclo na calçada antes do jantar, mesmo quando a barba apareceu nos rostos dos meninos e os cabelos brancos começaram a visitar as mulheres.
Às vezes eu a critico.
Acho que ela vive demais no passado. Repete muito as histórias. Insiste em lembrar nomes que ninguém mais lembra. Mas basta eu me afastar para sentir falta da sua mania de guardar memórias como quem recolhe roupas do varal antes da chuva, com medo de que alguma lembrança se perca na ventania do tempo.
Ela conheceu meus avós.
Conheceu amigos que já partiram.
Conheceu amores que passaram pela minha vida como pássaros de verão, deixando uma sombra breve sobre o quintal dos dias. E permaneceu.
Há uma espécie de amor que não faz promessas porque simplesmente fica.
Mesmo quando a gente cresce.
Mesmo quando a gente esquece de telefonar.
Mesmo quando passa anos olhando para outros horizontes.
Ela fica.

Outro dia me peguei observando suas marcas. As cicatrizes. As rachaduras discretas. Os sinais do tempo que ninguém consegue esconder para sempre. E, pela primeira vez, não senti pena delas. Senti ternura.


Outro dia me peguei observando suas marcas. As cicatrizes. As rachaduras discretas. Os sinais do tempo que ninguém consegue esconder para sempre. E, pela primeira vez, não senti pena delas. Senti ternura.
Porque cada marca conta uma história. Cada silêncio esconde vozes. Cada dobra guarda gerações inteiras respirando ali dentro, como brasas mansas que o tempo não conseguiu apagar.
Então compreendi que o que eu chamava de nostalgia era fidelidade.O que eu chamava de apego era memória.
O que eu chamava de saudade era amor.
Essa mãe de fronteira que nos cria, nos vê partir para longe e continua de braços abertos, esperando na mesma margem do rio, fingindo tranquilidade enquanto conta os passos dos filhos que ainda não voltaram e olha, de vez em quando, para a estrada.
Eu volto! Volto sempre para o teu colo, Uruguaiana.


Coisas do amor

Leocádio tinha dois metros de altura. Ou quase isso. Um homenzarrão de costas largas cravejada de uma musculatura assustadora. Sua fama de mala bruja campeava pelas redondezas. A simples menção de seu nome causava arrepios. A peonada media as palavras temendo um mal entendido, pois não sendo dado a delongas resolvia tudo no braço e no facão. Diziam a boca pequena que ele já havia apagado meia dúzia de desafetos, metade deles por motivos frívolos. Um olhar meio enviesado e rebombava a voz de trovão:

– Tá olhando o que vivente? Gosta de hôme ou tá admirando o cabo do meu trezoitão?

Um dia se enrabichou no povo. Veio pedir ao patrão alguma serventia pra moça na estância.

– Moça dereita, patrão, já le aviso, não é daquelas que sesteiam pra fora e é caprichosa também e eu queria a bichinha por perto. Senhor sabe como são essas coisas…

O pedido foi aceito. Tinha uma bolante vazia atrás da cabanha e a moça ajudaria na cozinha e na limpeza.

Assim chegou Leocádio segurando a cintura da Marinete. A peonada espichou o olho e começaram os cochichos: “Boa de anca, não? E enfiada nessas calça colada. Zulivre”

“E úbere que não falta, o Leocádio vai ter carne pra se sovar, vixe Maria”

Quando Leocádio chegava o silêncio se fazia. Ele punha os pulsos na cintura e perguntava de queixo em pé:

– Qual é a prosa aí?

–  O tempo … Parece que tá pronto pra se armar.

–  Ah, Bueno.

E Marinete gostava de uma exposição. Ah, gostava.

Quanto mais curto o vestido mais ela se abaixava pra catar alguma pedrinha do chão ou fingir que havia perdido alguma coisa.

O temor por Leocádio ainda reinava, mas as aparições de Marinete punham a peonada desconcentrada e os olhos eram todos voltados para seus atributos.

Leocádio já havia percebido, estava irritadiço. Um dia flagrou Carlinhos com os olhos fincados nos peitos da Marinete que pulavam pelo decote íngreme.

– Carlinhos! – disse roncando a cuia – perdeu alguma coisa?

– Nãnãnão, que é isso, Leocádio?

A carranca de Leocádio foi se desmanchando. Tirou o chapéu ajeitando os cabelos pra trás, num horizontal movimento de cabeça.

– Não faz isso, Carlinhos, não faz isso vivente. A Marinete se vai e tu finca os óio na bunda, a Marinete se vem e tu finca os óio nos peito. To observando faz tempo. Com tanta, mas tanta mulher por aí… Fica oiando logo pra essa bichinha que é a única que eu tenho? A ÚNICA! Os olhos de Leocádio eram rasos dágua. Alí jazia um terneiro guacho, desmanchado. Se levantou, cabeça baixa, resmungando “vou me recolher pra meu catre”.

– A peonada se entreolhou boquiaberta.

– Coitado do Leocádio, Virgem santa! Não é mais um homem.

– É a desgraça – disse Venâncio

– O fim.- completa Carlinhos com um olhar de piedade.

  1. Ela
  2. Coisas do amor
  3. Jô Soares
  4. O tarado das calcinhas
  5. Os gansos

Jô Soares

Que homem mais mal educado, não, sinhá?

– Que homem?

– Esse gordo.

– O Jô Soares, mas por quê?

– Bueno, a senhora mesmo que me ensinou que é falta de educação ficar indagando sobre a vida das pessoas.

– Não neste caso. Ele é um entrevistador, Camélio. Faz perguntas para pessoas conhecidas, importantes, interessantes… que tem o que dizer.

– Aí dá? Entendi. Só não dá pra indagar de ingnorante, então?

– Não dá pra indagar sobre a vida de ninguém. Ele pode porque é a profissão dele.

– Podia ser a minha também, mas não – dizia, olhando para os lados e esquecendo, por um instante, a televisão -. Eu tenho que picar cebola, limpar patente e não perguntar nada pra ninguém. E esse gordo se atraca numa gravata barboleta, sai perguntando tudo, ganha montes de dinheiro e ainda é fino. Não entendo essa vida. A senhora me confunde com seus ensinamentos. Uns podem perguntar o que querem e se é com nós saem dizendo que somos bagaceira!

– Com nós, não, conosco! Nunca se diz com nós, é conosco.

– Ah, tá, não vou mais esquecer. Mas, voltando ao assunto, que rica profissão esse gordo inventou: indagar, ganhar dinheiro e ainda ser chique.

– Camélio, nem pude assistir o programa com teus comentários. Amanhã não assiste.

– Não, eu prefiro o Gordo do que os filmes italianos.

– Que filme italiano?

– Esses que a senhora pega na locadora. Nunca falam brasileiro.

– Português.

– É, português ainda dá pra entender, mas os italianos nem pensar. Quando eu consigo acolherar a primeira palavra debaixo da tela, somem as figuras, aí não entendo mesmo. Ou só leio ou só olho o semblante. Ainda prefiro o gordo. A não ser que a senhora tire um filme do Brasil mesmo pra nosco.

– Pra nós!

– Ah, não! Ou a senhora inventa essas regras ou quer me enlouquecer mesmo. Vou pro o meu quarto. Boa noite.


O tarado das calcinhas

Tinha asco do cheiro dele, daquela mão alva com dedos amarelados de nicotina, os dentes estragados. Logo a avó, com tanto nojo de bocas alheias, não mandou o guri a um dentista para dar um jeito naquilo. Seria mais digno, mais generoso do que separar as louças: as da casa e as dos serviçais.

Deu pra chegar borracho nos dias de folga, com cheiro de canha e cigarro de matar mosquito.

Um dia se aventuraram ilicitamente, infiltrando-se naquele quarto amarelo e vasculharam suas gavetas descobrindo um sem número de calcinhas.

– Tarado? – perguntou Corinta.

– Tarado que coleciona calcinhas, idiota.

Ela sabia que algo havia de errado naquela inusitada coleção, só não sabia que sua irmã tinha um nome para designar o gosto pouco usual, e sentiu-se, mais uma vez, muito menos esperta que ela, que, já no outro dia, cochichou ao seu ouvido quando o viu passar assoviando a Comparcita: “Fetichista!”

Palavra que primeiro remeteu Corinta a um fumegante prato de massa com cogumelos e molho branco, e depois a um homem que arrumava feixes. De feiche clair. Uma coisa ela tinha certeza: Marina saiu em busca dessa definição com alguma pessoa, ou em algum livro, ou dicionário.

– Fetichista?

– É. É uma tara por calcinhas ou outra coisa, tipo salto alto.

– Salto alto? Como assim?

– Psh! Ele é tarado e a vó nem sabe, vai à cabeleireira, o vô vai ao café e quem nos cuida é o tarado das calcinhas, o fetichista.

“Fetuttini que é a massa. Fetichista é quem gosta de calcinhas e salto alto.”

Aracy, cheirando a talco, atravessa o pátio mormacento.

– Aracy, tu sabia que o Carlos é fetichista?

– Feti o que? É pau pra toda obra? Faz tudo? Isso?

– Não. Tarado.

– Bem que eu notei que ele chuleia minhas ancas quando passo – falou, com um sorriso malicioso -. Deve querer se deitar comigo, o desgracento.

Marina dá uma gargalhada:

– Aracy, o Carlos tem 24 anos e tu 83, criatura.

– Mas não é pra isso que servem os tarados?


Os gansos

Efigênia.
– Sim senhor, seu Marcos – respondeu secando as mãos no avental.
– Cadê meus vidros de cachaça que estavam aqui?
– Umas bola boiando n’água suja? Botei fora, tava podre, até fedendo! Larguei tudo na terra lá pra os lado do galpão.
– Minhas cachaça de butiá que eu mesmo preparei. Não acredito!
– Desculpe, não sabia que era canha, não senhor, mas que tava podre isso tava. Um cheiro de fazer cosca no nariz, uma imundícia. Então é isso que o senhor bica na frente da lareira de noite? Pos bem melhor, canha faz mal pro figo e pras fessura, além de deixar o cristão louco e puxador de briga.
– Por favor, Efigênia, pode te retirar.
Na manhã seguinte quando Marcos tomava o café da manhã com Matilde, entrou o Antero tirando o chapéu.
– Bons dias! Me adesculpem atrapalhar o café, mas venho com uma notícia ruim. Deu uma peste nos seus gansos, cinco já morreram e dois tão cambaleando. Velho Marcos e Matilde olhavam com tristeza os gansos mortos, balançando horizontalmente a cabeça, com os olhos marejados.
– Antero, faz um buraco grande, vamos enterrelá-los e ver se salvamos os que restam.
Virou as costas, com a cabeça baixa, e quando levou mão à porta voltou-se para o peão e gritou:
– Melhor: antes de enterrar depena os peitos, a traseira e o final do lombo. Vamos aproveitar essas penas para fazer travesseiros, que é coisa bem linda travesseiro de pena de ganso, e estamos esperando hóspedes pra Semana Santa. Depois de pronto, sim, enterra os bichos embaixo daquele pé de Paraíso.
Foi tomar mate na varanda, ainda triste pela perda dos animais. Há anos tinha gansos, faziam a guarda melhor que a cachorrada. Mas são os azares da vida…
Pouco antes da hora do almoço, Antero entrou apavorado na sala:
– Patrão, o serviço tá pronto, depenei os ganso, mas eles tão tudo voltando à vida, ansim meio tonto, com os olhos de mormaço, feito Jesus Cristo. Cruz em Credo!
Marcos correu em direção ao local indicado por Antero, dando de cara com os gansos vivos, andando meio de atravessado, mas vivos e depenados, feios como a necessidade.
– Ótie patrão, antes dos bicho ressucitar feito o Nazareno eu achei que eles tivesse se envenenado, porque comeram todas fruita estranha que tão aí jogada na terra. Passou o efeito ou é cosa doutro mundo mesmo – falou, cuspindo um naco de fumo.
– Os butiás das minhas cachaças!