Jô Soares
Que homem mais mal educado, não, sinhá?
– Que homem?
– Esse gordo.
– O Jô Soares, mas por quê?
– Bueno, a senhora mesmo que me ensinou que é falta de educação ficar indagando sobre a vida das pessoas.
– Não neste caso. Ele é um entrevistador, Camélio. Faz perguntas para pessoas conhecidas, importantes, interessantes… que tem o que dizer.
– Aí dá? Entendi. Só não dá pra indagar de ingnorante, então?
– Não dá pra indagar sobre a vida de ninguém. Ele pode porque é a profissão dele.
– Podia ser a minha também, mas não – dizia, olhando para os lados e esquecendo, por um instante, a televisão -. Eu tenho que picar cebola, limpar patente e não perguntar nada pra ninguém. E esse gordo se atraca numa gravata barboleta, sai perguntando tudo, ganha montes de dinheiro e ainda é fino. Não entendo essa vida. A senhora me confunde com seus ensinamentos. Uns podem perguntar o que querem e se é com nós saem dizendo que somos bagaceira!
– Com nós, não, conosco! Nunca se diz com nós, é conosco.
– Ah, tá, não vou mais esquecer. Mas, voltando ao assunto, que rica profissão esse gordo inventou: indagar, ganhar dinheiro e ainda ser chique.
– Camélio, nem pude assistir o programa com teus comentários. Amanhã não assiste.
– Não, eu prefiro o Gordo do que os filmes italianos.
– Que filme italiano?
– Esses que a senhora pega na locadora. Nunca falam brasileiro.
– Português.
– É, português ainda dá pra entender, mas os italianos nem pensar. Quando eu consigo acolherar a primeira palavra debaixo da tela, somem as figuras, aí não entendo mesmo. Ou só leio ou só olho o semblante. Ainda prefiro o gordo. A não ser que a senhora tire um filme do Brasil mesmo pra nosco.
– Pra nós!
– Ah, não! Ou a senhora inventa essas regras ou quer me enlouquecer mesmo. Vou pro o meu quarto. Boa noite.
Valéria Surreaux

Uruguaianense. Escritora e jornalista, é contista e cronista, autora de livros inspirados em Uruguaiana, onde nasceu. Ministra oficinas literárias que têm a cidade como cenário, explorando lendas, personagens populares e históricos de diferentes épocas. Em sua página, Expressão da Terra, título que homenageia seu jornal cultural dos anos 90, ela compartilha contos e causos no melhor estilo “uruguaianês.
O tarado das calcinhas
Tinha asco do cheiro dele, daquela mão alva com dedos amarelados de nicotina, os dentes estragados. Logo a avó, com tanto nojo de bocas alheias, não mandou o guri a um dentista para dar um jeito naquilo. Seria mais digno, mais generoso do que separar as louças: as da casa e as dos serviçais.
Deu pra chegar borracho nos dias de folga, com cheiro de canha e cigarro de matar mosquito.
Um dia se aventuraram ilicitamente, infiltrando-se naquele quarto amarelo e vasculharam suas gavetas descobrindo um sem número de calcinhas.
– Tarado? – perguntou Corinta.
– Tarado que coleciona calcinhas, idiota.
Ela sabia que algo havia de errado naquela inusitada coleção, só não sabia que sua irmã tinha um nome para designar o gosto pouco usual, e sentiu-se, mais uma vez, muito menos esperta que ela, que, já no outro dia, cochichou ao seu ouvido quando o viu passar assoviando a Comparcita: “Fetichista!”
Palavra que primeiro remeteu Corinta a um fumegante prato de massa com cogumelos e molho branco, e depois a um homem que arrumava feixes. De feiche clair. Uma coisa ela tinha certeza: Marina saiu em busca dessa definição com alguma pessoa, ou em algum livro, ou dicionário.
– Fetichista?
– É. É uma tara por calcinhas ou outra coisa, tipo salto alto.
– Salto alto? Como assim?
– Psh! Ele é tarado e a vó nem sabe, vai à cabeleireira, o vô vai ao café e quem nos cuida é o tarado das calcinhas, o fetichista.
“Fetuttini que é a massa. Fetichista é quem gosta de calcinhas e salto alto.”
Aracy, cheirando a talco, atravessa o pátio mormacento.
– Aracy, tu sabia que o Carlos é fetichista?
– Feti o que? É pau pra toda obra? Faz tudo? Isso?
– Não. Tarado.
– Bem que eu notei que ele chuleia minhas ancas quando passo – falou, com um sorriso malicioso -. Deve querer se deitar comigo, o desgracento.
Marina dá uma gargalhada:
– Aracy, o Carlos tem 24 anos e tu 83, criatura.
– Mas não é pra isso que servem os tarados?
Os gansos
Efigênia.
– Sim senhor, seu Marcos – respondeu secando as mãos no avental.
– Cadê meus vidros de cachaça que estavam aqui?
– Umas bola boiando n’água suja? Botei fora, tava podre, até fedendo! Larguei tudo na terra lá pra os lado do galpão.
– Minhas cachaça de butiá que eu mesmo preparei. Não acredito!
– Desculpe, não sabia que era canha, não senhor, mas que tava podre isso tava. Um cheiro de fazer cosca no nariz, uma imundícia. Então é isso que o senhor bica na frente da lareira de noite? Pos bem melhor, canha faz mal pro figo e pras fessura, além de deixar o cristão louco e puxador de briga.
– Por favor, Efigênia, pode te retirar.
Na manhã seguinte quando Marcos tomava o café da manhã com Matilde, entrou o Antero tirando o chapéu.
– Bons dias! Me adesculpem atrapalhar o café, mas venho com uma notícia ruim. Deu uma peste nos seus gansos, cinco já morreram e dois tão cambaleando. Velho Marcos e Matilde olhavam com tristeza os gansos mortos, balançando horizontalmente a cabeça, com os olhos marejados.
– Antero, faz um buraco grande, vamos enterrelá-los e ver se salvamos os que restam.
Virou as costas, com a cabeça baixa, e quando levou mão à porta voltou-se para o peão e gritou:
– Melhor: antes de enterrar depena os peitos, a traseira e o final do lombo. Vamos aproveitar essas penas para fazer travesseiros, que é coisa bem linda travesseiro de pena de ganso, e estamos esperando hóspedes pra Semana Santa. Depois de pronto, sim, enterra os bichos embaixo daquele pé de Paraíso.
Foi tomar mate na varanda, ainda triste pela perda dos animais. Há anos tinha gansos, faziam a guarda melhor que a cachorrada. Mas são os azares da vida…
Pouco antes da hora do almoço, Antero entrou apavorado na sala:
– Patrão, o serviço tá pronto, depenei os ganso, mas eles tão tudo voltando à vida, ansim meio tonto, com os olhos de mormaço, feito Jesus Cristo. Cruz em Credo!
Marcos correu em direção ao local indicado por Antero, dando de cara com os gansos vivos, andando meio de atravessado, mas vivos e depenados, feios como a necessidade.
– Ótie patrão, antes dos bicho ressucitar feito o Nazareno eu achei que eles tivesse se envenenado, porque comeram todas fruita estranha que tão aí jogada na terra. Passou o efeito ou é cosa doutro mundo mesmo – falou, cuspindo um naco de fumo.
– Os butiás das minhas cachaças!