O habitat do povo Charrua
Os povos que viviam na América antes da invasão dos espanhois e portugueses, chegaram mais ou menos na mesma época das grandes migrações humanas por todo o planeta. Isso aconteceu por volta de 50 mil anos atrás.
A maior parte desses povos veio pelo norte da Ásia, através do estreito de Bering. Eles entraram pelo Alasca e se espalharam pelo continente. Outros talvez, navegando de ilha em ilha, através do oceano Pacífico, alcançaram a América, chegando ao litoral do Chile ou do Peru.

Outros grupos teriam vindo da Malásia ou da Austrália, chegando em nosso continente pela Patagônia (Argentina).
Havia grupos humanos que viviam no Brasil provavelmente há mais de 30 mil anos, como atestam as pinturas rupestres encontradas nas cavernas de São Raimundo Nonato, no Piauí.
Há 11.000 anos atrás, nas margens do rio Uruguai, em Uruguaiana, o homem (Paleoindígena) já exercia suas atividades cotidianas, onde extraía o necessário para a sua sobrevivência.
As migrações continuaram e alguns povos foram sendo substituídos por outros, seja por causa de guerras, doenças ou problemas climáticos, como secas, inundações ou terremotos.
Não se sabe ao certo quantas nações haviam nas Américas no século XVI, mas eram certamente mais de 3.000. Na região que é hoje o Brasil, havia centenas de nações. Entretanto, muitas delas desapareceram sem deixar seu nome registrado na história.
Por volta de 1.000 a.C se formaram as grandes civilizações do Continente Americano: Maia (América Central), Asteca (México) e Inca (Peru). Nessa época, os indígenas Charrua, já habitavam o oeste da República Oriental do Uruguai, o nordeste da Argentina e o sudoeste do Rio Grande do Sul. Charrua, na língua Quichua, significa ribeirinho. Não moravam na mata, eram quase nômades. Habitavam esta parte do Pampa, região de planícies, formado por vegetação rasteira, com solos geralmente férteis e alguns arenitos, interrompido em alguns trechos por regiões alagadiças e coxilhas.
A flora era riquíssima, diversificada e farta. Nas coxilhas os pastos eram altos e fibrosos. Os campos eram macegosos com gramíneas boas e ruins. Nas várzeas e banhados predominavam o capim santa-fé, juncos, cola-de-sorro e caraguatás. Nas sangas, arroios e lagões predominavam os aguapés.
Existiam poucas espécies animais, quase todas de pequeno porte. Esse mundo animal era formado por capivaras, ratões do banhado, jacarés do papo amarelo, veados, cutias, pacas, preás, emas, jaguatiricas, zorrilhos, bugios, guarás. O principal animal nocivo era a onça pintada.
Nas restingas e matas encontravam-se pombões, papagaios, caturritas, juritis, rolinhas, jacutingas, seriemas e uma infinidade de outras aves menores. Esparramados pelas coxilhas e várzeas, existiam os tatus e as mulitas.
O clima naquela época tinha quatro estações bem definidas, um inverno rigoroso, com constantes geadas, temperaturas muitas vezes abaixo de zero com vento frio cortante (o minuano). Verão quente com temperaturas beirando os 40°C. Outono com temperatura em volta de 20°C. Primavera da reprodução animal e produção vegetal.
Dagoberto
Alvim

Uruguaianense. Historiador, guia, pesquisador e autor. Filho de militar, morou em várias regiões do Brasil, mas nunca deixou de amar Uruguaiana. A distância apenas fortaleceu seu vínculo com a fronteira. Ao retornar, iniciou um trabalho de pesquisa que resultou em obras históricas relevantes, tornando-se referência na preservação da memória local. Na página Terra Charrua, nos conta sobre o território de Uruguaiana.
Caçadores, pescadores e coletores
Donos de parte desse habitat eram os indígenas Charrua, que, por ele, transitavam em bandos, vivendo da caça, pesca e coleta de frutos do mato. Os campos da fronteira sudoeste, habitat dos Charrua, eram apropriados para esse povo semi-nômade, sem paradeiro fixo, sem agricultura, que é estática. Se movimentavam de acordo com a escassez ou abundância da caça (emas, cervos e roedores), sua principal e quase única alimentação. Como auxiliares nesse regime alimentar (caça-carne vermelha), também existiam a pesca, os ovos da ema, da perdiz e do jacaré de papo amarelo e os frutos do mato. Eram excelentes caçadores, descobrindo com rapidez a pista dos animais, ou atraindo-os através da imitação de seu grito.
Para caça e apreensão usavam boleadeiras, arco e flecha, funda e lança, e para pesca, anzóis de osso. As pontas de flecha e de lança eram feitas de pedra lascada. As coletas eram realizadas pelas mulheres.
Utilizavam cuias feitas de cabaça para guardar alimentos e água. A bebida preferida deles era o hidromel (mel de abelha misturado com água). Fermentada, obtinha forte teor alcoólico.

A boleadeira (foto ao lado) era uma arma que consistia em três pedras arredondadas atadas com tiras de couro torcidos de mais ou menos 1m de comprimento, as quais eram unidas umas as outras. O caçador tomando de uma das pedras girava rapidamente as outras duas por sobre a cabeça, enquanto se dirigia à caça. Quando julgava oportuno, lançava com maestria, de maneira que as pedras ao encontrar a caça, enrolavam-se nas suas patas e a derrubava. Assim, a mantinham por algum tempo maneada até que o caçador chegasse.
Os animais abatidos por eles eram rigorosamente selecionados e somente matavam os machos para a sua alimentação, nunca por lazer, poupando as fêmeas, garantindo assim a perpetuação das espécies e estoque vivo e reprodutivo para sua sobrevivência.
O aspecto físico
As características dos indígenas Charrua, segundo vários cronistas dos séculos XVII e XVIII, eram as de um povo guerreiro, de aspecto sério e calado, porte duro e feroz.
Os homens tinham estatura média de 1,70m e as mulheres de 1,65m. A tatuagem no rosto, que consistia em três linhas da raiz dos cabelos até a ponta do nariz e duas linhas transversais, era uma característica marcante da tribo. Para a guerra e festas pintavam a mandíbula superior de branco.

O espanhol Felix de Azara descreveu o aspecto físico dos Charrua:
“(…) mas os indivíduos mais igualados e bem proporcionais, sem que entre eles haja contrafeito ou defeituoso, nem que peque por ser gordo ou fraco. São altivos, soberbos e ferozes, levam a cabeça reta e a testa erguida, e a fisionomia bem distribuída. Sua cor se aproxima tanto ou mais do negro que do branco se aproximando do vermelho. As feições do rosto, masculinas e regulares, mas o nariz um pouco achatado e estreito entre os olhos. Os mesmos pequenos e reluzentes, pretos, nunca de outra cor, nem muito abertos. A visão e os ouvidos duplamente mais perspicazes que os dos espanhóis. Os dentes nunca doem nem caem naturalmente, nem mesmo em idade muito avançada, e sempre são brancos e muito bem distribuídos. As sobrancelhas pretas e ralas. Eles não tem barba nem pelo em outra parte, além de um pouco no púbis e nas axilas. Seu cabelo é muito volumoso, comprido, macio, grosso, preto, jamais de outra cor, nem crespo, nem caem; somente fica um pouco grisalho em idades muito avançadas. As mãos e os pés um pouco pequenos, porém mais bem conformados que os nossos; o peito das mulheres não tão abundantes como os de outras tribos de índios.’’
A família

Ilustração: Vaimaca e os últimos charruas em 1833
Os Charrua viviam em pequenos grupos formados por 10 a 15 familias, chefiados por um cacique de pouca autoridade que, nos momentos de perigo, atuavam no conselho de anciãos. Os mais velhos desempenhavam um papel importante e eram sempre ouvidos e respeitados.
A familia Charrua era poligâmica, onde os homens podiam casar-se com outras mulheres. Eles casavam mais velhos que elas. As mulheres estavam prontas para o casamento quando viesse a primeira menstruação. Elas passavam por um ritual de iniciação onde eram conduzidas até um toldo específico, sendo cobertas com muitos agasalhos durante a cerimônia. Todavia, eram submissas ao seus maridos.
O divórcio era uma prática corriqueira. O casal podia se separar quando não tivesse filhos, enquanto que o adultério era punido apenas com a agressão física do adúltero, podendo se reconciliar.
As mães transportavam os filhos pequenos presos às costas, dentro de uma xerga. Ao ficarem órfãos, eram adotados por parentes.
As tarefas domésticas eram responsabilidades das mulheres, assim como o transporte dos toldos, o cuidado com os cavalos, a carneada e até a preparação dos alimentos, enquanto os homens só se dedicavam à guerra e à caça. Nas suas horas de ócio, eles passavam grande parte do seu dia praticando o tiro de bolas. Este jogo consistia em enredar a boleadeira em uma pequena estaca cravada no solo.
Transmitiam suas tradições e histórias de pais para filhos, principalmente à noite, ao redor do fogo ou depois das comidas.
Os Charrua, como os demais índios, nunca se vestiram muito. As suas vestes podem ser resumidas em um pequeno saiote para as mulheres e para os homens uma espécie de capa, feitas de pele de animais curtida com gordura de peixe.
Anibal Barrios Pintos descreve o Kayapi ou Kilapi usados pelos Charrua: “…Despidos no verão, porém em tempo de maior rigor climático se vestiam com uma espécie de manto de abrigo, confeccionado com peles de animais selvagens (veados especialmente), formadas de pequenos troços de 5 ou mais peças juntas, que os Guarani chamavam ‘Kiyapí’, que significa couro de nútria.” As mulheres é que confeccionavam os Kilapi e os saiotes. Quando do contato mais efetivo com o colonizador no século XVIII, começaram a usar o poncho de lã ou algodão, conseguido por troca ou presente recebido dos Guarani missioneiros.
As habitações
Como eram semi-nômades e viviam da caça, pesca e coleta, os Charrua, por isso, não construíam aldeias permanentes. Entretanto, armavam toldos resistentes. O toldo era o abrigo construído pela mulher, que pegava 4 varas grossas de Junco-seco, fincava uma das pontas no chão, curvando a vara até que a outra extremidade também fosse enterrada, em forma de “U” invertido, cobrindo-o com couro de veado.No final do século XVII, com a descoberta da Vacaria do Mar (R.O.U), os Charrua substituíram o couro de veado por couro de vaca.

O padre jesuíta José Cardiel, no seu diário de 1748, durante sua viagem ao Rio Sauce (hoje Arroio Salso de Baixo – Uruguaiana) escreveu: ‘‘Em cada toldo dormiam como 10 pessoas entre crianças e adultos e outros tantos cães, uns sobre os outros em tão pequena instalação.”Segundo Aurélio Porto, “(…) as suas mudáveis casas costumavam armar sobre alguma descoberta colina e raras vezes junto do mato (…), servindo-lhes como dormitório, lugar para comer e cozinhar, chegando a abrigar cerca de cinco a seis indivíduos. A alimentação era uma ação coletiva que reunia o grupo fora dos toldos.’’ Usavam para leito pasto seco que cobriam com peles de jaguatiricas, pumas, cervos, capivaras.
Nas noites frias de inverno, os Charrua aqueciam-se ao redor de braseiros que mantinham acesos em seus toldos. Armavam o fogo juntando de três a quatro pedras bem grandes. Faziam fogo atritando a madeira seca de espinilho, coronilha e aroeir
Imagem: Débora Cadaval
A espiritualidade
Conforme os relatos dos padres jesuítas nos séculos XVII e XVIII, sob o ponto de vista católico, a espiritualidade dos Charrua estava ligada à “feitiçaria” (curanderismo). As cerimônias religiosas eram dirigidas pelos “feiticeiros”, (curandeiros), que tinham o poder de fazer chover, provocar tormentas, desatar a fúria das feras e transbordar rios e arroios. Invocavam um ser superior chamado pelos jesuítas de “diabo”, que se mostrava visível para os nativos. Acreditavam na existência de espíritos bons e nos espíritos maus, que procuravam destrui-los, provocando as doenças e a morte. Também acreditavam na sobrevivência da alma depois da morte. A Lua era o grande espírito do bem, que protegia à todos.
Havia feiticeiras (curandeiras) que chupavam a pele nos lugares doloridos, na tentativa de aliviar as dores. Elas tinham um grande conhecimento dos segredos da natureza e sabiam como combater as dores de cabeça, os enjôos, as cólicas, as inflamações, etc., utilizando como remédio plantas eficazes.
Cada toldaria (aldeia) tinha seu pequeno cemitério localizado sobre uma coxilha próxima. Todos os corpos, indistintamente, eram enterrados em covas rasas, cobertas com pedras, a fim de protege-los da destruição pelas feras. Junto ao corpo do falecido eram colocadas suas armas e outros objetos. Levavam os ossos dos parentes para onde se mudavam.
Quanto ao luto, as obrigações eram diferenciadas com relação ao sexo e parentesco. Se o morto era o pai, marido ou irmão que houvesse desempenhado chefia familiar, os filhos, a viúva e irmãs casadas, cortavam uma falange da mão, começando pelo dedo minguinho. Além disso, faziam com a lança do morto vários cortes espalhados pelo corpo, ficando depois durante duas luas, tristes, ocultos em seus toldos, comendo apenas determinados alimentos.
Os maridos não faziam luto por suas mulheres, nem os pais por seus filhos. As obrigações de luto no sexo masculino eram para os filhos adultos e começavam logo depois do desencarne. O ritual era longo e sacrificado, finalizado por mutilações passageiras, provocadas pela introdução de estiletes pontiagudos nos membros superiores desde os pulsos até as paletas. Completavam esse sacrifício com um recolhimento de aproximadamente dez dias, durante os quais faziam rigoroso jejum comendo unicamente ovos de perdiz.
Língua Charrua
A língua Charrua durante muito tempo foi considerada uma língua isolada, sem parentesco com nenhuma outra. As informações a respeito dela são contraditórias e variadas.
Desse idioma se conserva um vocabulário de 70 palavras, colhidas pelo Dr. Teodoro Vilardebó em 1841 e 1842, a partir do testemunho do sargento-mor Benito Silva, que conviveu com os Charrua por 5 meses em 1826.
O linguista Wilmar D’Angelis estabelece uma diferença entre uma “língua morta”, que não tem mais falantes e não é mais usada nas relações do cotidiano, mas que vem documentada como o latim e o tupi antigo. Por outro lado, uma “língua desaparecida”, que é uma língua morta sem documentação, não tem falantes, mas apenas “lembrantes”.
O que sobrou da língua Charrua? Vejamos:
Bilu (belo, formoso), ej (boca) isbaj (braço), is (cabeça), sepé (lábio), guar (mão), ibar (nariz), ijou (olho), imau (orelha), itaj (cabelo), atit (pé), berá (ema), jual (cavalo), godgororoy (presumivelmente uma onomatopéia do grito do ganso silvestre), mautiblá (mula), lojan (cachorro), beluá (vaca), hué (água), quícan (aguardente, cachaça), it (fogo), guidaí (lua), itojmau (rapaz), chalouá (moça), sisi (mistura de pó de osso e de tabaco que os Charrua mascavam), yú / i-u (um), sam / saú (dois), deti/ datit (três), betum (quatro), betum yú (cinco), betum sam (seis), betim deti (sete), betum arrasam (oito), baquiu (nove), guaroj (dez), lai (bolas), lai sam (boleadeira de duas bolas, para bolear emas), lai detí (boleadeira de três bolas, para bolear cavalos), tinú (faca), misiajalaná (fique quieto), andó diabun (vamos dormir), guamanaí (cunhado), inchalá (irmão), lajau (umbú), babulaí (boleado), bajiná (caminhar), ilabum (dormir), basquade
(levantar-se), au (matar), na (traz), taipi (coberta feita de peles de animais usada pelas mulheres Charrua e pendurada no pescoço por uma tira de couro), thoia (pasta de barro vermelho misturada à banha de cavalo que os Charrua utilizavam para pintar o rosto), ticuiquirá (pequena ilha dos pássaros), najuaiyú (o cavaleiro da faca), gualicho (nome de um dos espiritos evocado pelos Charrua), Nhanquentru (saudade), Baumarahate (cerro frio), Juaigualicho (cavalo do diabo).
A resistência indígena no Rio Uruguai
O rio mais populoso da região no século XVII era o Rio Uruguai, que desemboca no Rio da Prata, na cidade de Buenos Aires, cujo nome provém da língua Guarani (rio dos Passáros).
A missão evangelizadora do rio Uruguai pelos jesuítas iniciou em 1619 com o padre Roque Gonzáles, que levantou a costa do rio em ambas as margens, no atual Município de Itaqui (BR) e no Departamento de Alvear (R.A.), conseguindo reunir inúmeros Guarani. Porém, depois de passar pela foz do rio Ibicuí, na localidade do Aferidor (Município de Uruguaiana), não pôde avançar mais devido a ira dos Charrua, gente forte e adestrada para a guerra. Os Charrua se sentiram ameaçados quando as canoas dos jesuítas entraram no rio.
No ínicio de 1626, outro jesuíta, padre Pedro Romero, vindo de Buenos Aires, acompanhado de índios amigos, navegou pelo rio Uruguai, visto que à altura do atual Município de Barra do Quaraí, os Charrua o intimaram a voltar, sob pena de matá-lo. Logo depois, o padre Roque, também tentou navegar rio Uruguai abaixo, sendo novamente ameaçado de morte pelos Charrua.
Devido a esses incidentes com os religiosos, a ocupação espanhola e a catequese jesuítica da região encontraram uma barreira, o povo Charrua.

Cacique Guairama
O padre Pedro Romero fundou em 4 de fevereiro de 1626, na margem ocidental do rio Uruguai, quase em frente à Vila de São Marcos (5º Distrito), a Redução de Japejú (hoje San Martin – R.A.). A maior preocupação dos jesuítas era a segurança contra os portugueses, os indios Charrua e Jaro.
Os jesuítas designavam Japejú como sendo “a chave do rio Uruguai”, porque era um ponto estratégico entre Buenos Aires e as reduções do norte.
Segundo Branislava Susnik, ‘‘a Redução de Japeju era formada pelos gentios Guarani (a maioria), Charrua e Jaro’’. Por isso afirma que ‘‘os mesmos Guarani do Povo de Japeju foram em grande parte mestiços intertribais”.
O Padre Provincial Mastrilli Durán destaca em suas cartas ânuas dos anos de 1626 e 1627 as relações comerciais interetnicas realizadas entre o Povo da Redução de Japeju e os índios infiéis (não catequizados): Os Charrua, os Jaro e outras etnias bárbaras “tratam também (comercialmente) com os índios do Uruguai (Guarani), em particular com os desta redução, ponto-chave de toda esta Província.”
É evidente que havia uma comunicação entre os Charrua e os Guarani, porque os viajantes deveriam passar por zonas habitadas pelos dois grupos étnicos, e os primeiros serviam como espias.
O Padre Provincial menciona a participação do novo Povo do Cacique Guairama, procedente do rio abaixo que “se autoproclamava senhor daquelas ilhas.” O jesuíta se referia as ilhas do rio Uruguai: Pacú, da Saudade I e da Saudade II.

A ilha Pacú está localizada em frente à cidade de Uruguaiana. As outras duas localizam-se à nordeste da cidade.
Guairama era um cacique Guarani que tinha vários filhos casados com índias Charrua que cortaram os dedos, “conforme o costume de sua etnia, pelo motivo de dor.”
Na imagem, a Ilha Pacu, no rio Uruguai, chamada pelos Charrua de Ticuiquirá (pequena ilha dos pássaros). Foto de Moacir Scherer.
Cavaleiros
Em 1635, os Charrua começaram a ver os jesuítas e os Guarani missioneiros a cavalo e também trataram de se apropriar destes animais. A partir daí, o modo de vida deles foi alterado. Aprenderam a lidar e usar o cavalo para o transporte, caça e guerra. Tornaram-se admiráveis cavaleiros, montando em pêlo e sem freio, empregando em vez deste um bocal de couro ao qual prendiam as rédeas. Pelo seu modo de domar, o cavalo cede para os dois lados, sob as rédeas unidas, ao passo que os espanhóis governavam puxando cada cana de rédea para o lado necessário. Os seus cavalos eram primorosamente amansados.
Segundo Felix de Azara, “os Charrua teriam cavalos com velocidade superior à dos espanhóis e mais bem treinados. Quando se preparavam para atacar, mandavam espias para conhecer o terreno inimigo. Se um desses espias fosse avistado, ele corria em uma direção totalmente oposta à de seu grupo. Quando estavam prontos para o ataque, o faziam de maneira rápida, golpeando a boca ao mesmo tempo em que gritavam, matando todos que encontrassem, deixando vivas somente mulheres e crianças’’.

Em campo aberto, indio e cavalo formavam um vulto único, pois ele deitava o corpo sobre o flanco do animal, enganchado com uma perna por cima do lombo e a outra por baixo, ocultando seu corpo do adversário, segurando com uma das mãos as crinas e com a outra segurava a lança, dificultando assim qualquer golpe.
Os Charrua ampliaram suas correrias na margem ocidental do rio Uruguai, devastando as vacarias de Corrientes e Santa Fé, roubando as estâncias missioneiras e atacando a Redução de Japeju.
Antes de realizarem os ataques, os caciques faziam emocionados discursos guerreiros.
Conforme atestam as cartas ânuas de 1637/1639 a hostilidade aos padres jesuítas permanecia no espírito dos índios Charrua.
Em 1644, os Charrua atacaram a Redução de Japeju, sendo defendida valentemente pelos Guarani. Estes foram autorizados em 1646, a usar armas de fogo para defender-se tanto dos índios infiéis como dos portugueses.
Os ataques dos Charrua causaram um grande prejuízo ao povo de Japeju. Estas aventuras eram para os Charrua, de proveito incalculável. Primeiro, tinham o lucro imediato das presas que faziam (cavalos e gado). Segundo, aprisionavam grande número de homens, mulheres e crianças, que eram vendidos em Santa Fé como escravos, recebendo em pagamento roupas, armas, ferramentas, vinho e álcool. Este tráfico criminoso, vergonhosamente incitado pela população espanhola, foi em vão proibido pelos governadores La Cueva em 1640, Láriz em 1647 e Salazar em 1665.
Segundo Gomeza Gomez, “a incorporação do cavalo e a capacidade de gestão para transportar e alimentar milhares destes animais dão conta do dinamismo e da capacidade de adaptação dos nativos diante das novas realidades. O roubo de cavalos responde a uma estratégia de desarmar o inimigo, fortalecer a mobilidade e capacidade bélica própria, assim como afirmar suas possibilidades de troca com a sociedade colonial.’’
Na guerra, quando o homem só possuía um cavalo, era ele quem montava e sua mulher seguia-o a pé, carregando filhos e pertences.

A introdução do cavalo nas missões jesuíticas em 1634, fez dos índios Charrua exímios cavaleiros. Nesta imagem, vemos um cacíque vestindo seu “bicuis”, (espécie de calção extremamente curto) de tecelagem rústica, empunhando uma lança. Era hábito entre eles pintarem o rosto com uma pasta de barro vermelho, “thoia”, misturada à banha de cavalo. Curioso é o ornato da couraça, com estranho desenho.
Imagem: Cacique Charrua
Aquarela de Debret.
A Invasão da Terra Charrua
O ano de 1657 marca o início da invasão da terra Charrua no espaço geográfico do atual município de Uruguaiana. Naquele ano, os padres jesuítas da Redução de Japeju, Francisco Ricquart (Cura) e Juan Bautista Mejía (Vice-cura), auxiliados pelos Guarani missioneiros, trouxeram 1.000 cabeças de gado da Estância San Andrés (R.A.), transpondo o rio Uruguai no Passo do Japeju (hoje Passo do Aferidor) e assentaram-nas numa coxilha junto ao arroio Japeju (hoje arroio Puitã – BR), dando origem à Estância Santiago, cujo nome foi uma homenagem ao Santo Padroeiro de toda a Espanha.
A escolha do local deveu-se, além da proximidade da redução, à excelência das pastagens e a abundância de água, bem junto ao vau seguro e facilmente vadeável a cavalo (Japeju), o que permitia cruzar as tropas sem transtornos, de uma banda para a outra do rio.
A sua criação surgiu como uma necessidade de formação de um ponto de exploração econômica, em face da ausência de minerais, do comércio limitado, da ocorrência de secas e pragas nas plantações, das ameaças dos bandeirantes paulistas, mas, principalmente, serviu como fator de fixação dos Guarani na redução. Os Guarani, ensinados pelos padres, organizavam todas as atividades de manejo e aparte do gado para consumo dos índios da Redução de Japeju, cuja população continuamente aumentava, sendo a carne a principal fonte de alimentação.
Pela importante posição estratégica, a Estância Santiago constituía também uma espécie de posto avançado para defesa e vigilância de toda a região da redução.
Gomeza Gomez diz que “a invasão da terra Charrua teve um efeito negativo para as relações pacíficas, pois o benefício que os “infiéis” obtinham da troca com a sociedade colonial, portuguesa ou espanhola, começava a ser ameaçada pelo complexo jesuítico-Guarani. A partir daí, as tensões com os índios Charrua e outros infiéis tornariam-se constantes, devido à competição pelos recursos existentes.”
Era inevitável que os Charrua reagissem ante a invasão de suas terras.
A Aliança com os Portugueses
A Coroa portuguesa começou a demonstrar interesse em estender seus limites territoriais até o rio da Prata em 1680, quando mandou o Almirante D. Manuel Lobo fundar uma fortaleza na margem setentrional, bem diante de Buenos Aires, com o nome de Colônia do Santíssimo Sacramento. Porém, alguns meses depois, ela é destruída pelos espanhóis. Em 1683, após um tratado entre Portugal e Espanha, os portugueses voltam a Colônia e a reconstroem.

Depois da fundação da Colônia do Sacramento, os espanhóis já planejavam conter o avanço português em direção à porção meridional, por isso, fundaram os Sete Povos e expandiram as estâncias missioneiras. O avanço das estâncias missioneiras descontentou os índios infiéis. Jaime Cortesão explica:
“Os Sete Povos estenderam suas estâncias ao sul do rio Jacuí até o Camaquã e do rio Ibicuí até o rio Queguay, em territórios que antes pertenciam aos índios infiéis. Ergueram capelas, casas de posteiros, mangueirões, casas de peões e capatazes. O gado que antes era livre e servia de alimentação aos pampeanos, agora pertencia às estâncias missioneiras. Não adiantava aos infiéis argumentarem que estas terras pertenceram aos seus avós, eram considerados como ladrões de gado pelos missioneiros.”
O governador da Colônia, Sebastião da Veiga Cabral (1699 – 1705), buscou meios de atrair os Charrua, infundindo-lhes sentimentos de confiança. Em troca de gado e cavalos, os índios recebiam facas, armas, dejarreteadeiras (instrumentos para derrubar o gado selvagem), roupas e outros utensilíos. A carne alimentava a guarnição da Colônia.
Cabral exaltou as virtudes guerreiras dos Charrua, afirmando que: “20 deles valiam por 200 guerreiros de outras nações indígenas.”
24
O dominio do território, a exploração das riquezas e o uso da mão de obra é o que motivavam as relações dos colonizadores com os nativos.
Em 1700, os changadores (espanhóis e portugueses) descobriram a Vacaria do Mar. Eles vendiam o couro aos negociantes portugueses da Colônia do Sacramento e aos ingleses, que o exportavam para a Europa, obtendo grandes lucros. Por essa época, havia no Velho Continente um amplo mercado para o couro, que tinha várias utilidades: arreios, calçados, roupa, cinto, chapéu, caneco, etc.

changadores eram gaudérios que matavam gado sem qualquer licença governamental.
Mantinham boas relações com os índios infiéis presenteando-lhes com artigos de seu agrado, recebendo em troca auxílio de pousada, remonte e escolta. Tanto os changadores quanto os negociantes portugueses, viviam dos lucros auferidos no negócio do couro apoiados pelos infiéis.
Changador – desenho de Adolphe D’Hastrel.
Paris,1840. Col. Museo Histórico Municipal de Montevideo.
No inicio de 1701, os Charrua iniciaram uma maior aproximação que resultaria numa aliança com os portugueses.
Outros urubus porém, rondavam a terra indígena. A Companhia Francesa da Guiné, farejando o êxito do negócio, foi autorizada em 1701, a desembarcar escravos em Buenos Aires e levar couros de torna-viagem. Os franceses aportavam no litoral do Atlântico e compravam o couro dos changadores.
No ano seguinte, a Coroa Portuguesa concedeu ao comerciante-aventureiro português, Cristóvão Pereira de Abreu, o monopólio de toda courama da Vacaria do Mar. Ele arrematou esse contrato (a caça dos couros) mediante o pagamento de 70.000 cruzados anuais, quantia enorme para a época. Entretanto, começa o extermínio do gado dessa vacaria. Os changadores matavam o gado a tiros, aproveitando somente o couro, ficando a carne apodrecendo no campo.
Pelo dinamismo de Cristovão, a Colônia do Sacramento se tornou o maior empório mundial de comércio e contrabando de couros na primeira década do século XVIII, chegando a exportar 500.000 peças por ano, ou seja, 500.000 bois, caçados pelos changadores, índios Charrua e Minuano.
Retrato supositivo de Cristóvão Pereira de Abreu. Aquarela de Benício.




