Memórias da Califórnia

capítulo 1

Colmar Duarte: Memórias da Califórnia da Canção Nativa

A califórnia antes da califórnia

O poeta, escritor e compositor Colmar Duarte, homem do campo, da cidade e da cultura, compartilhou memórias do festival nativista que se tornaria o maior em sua categoria no sul do Brasil e seria reverenciado, aplaudido, inspirando tantos outros, transformando o futuro da música regional gaúcha.

A Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, idealizada por Colmar Duarte, tornou-se um movimento cultural ao inserir um novo jeito de cantar o nativismo, de uma maneira mais leve e livre. Na verdade, um rompimento com a música tradicionalmente representativa deste passado.

Neste conjunto de entrevistas, ele conta, em capítulos, a história, os bastidores e o contexto social de um tempo em que o gaúcho era descriminado pelos moradores da cidade.

Entre livros, fotografias, troféus e homenagens, na biblioteca da sua residência e do alto dos seus 93 anos de vida, Colmar revira as memórias e abre as gavetas do início da década de 1970, que guardam as lembranças da organização e realização do primeiro festival, assim como da formação do grupo musical Os Marupiaras.

“A Califórnia começou antes dela existir”, diz.

a história não muda

Colmar guarda jornais desde antes da primeira Califórnia.

“Uma vez um museólogo me perguntou quantos jornais eu tinha para pesquisa. Eu disse que guardava as folhas que me interessavam. Ele disse: “Se tu me disser a altura da pilha, eu te digo”. Então fui medir. “Um metro e vinte e cinco de jornais”.

Colmar guarda-os desde os antecedentes da primeira edição do festival. “As entrevistas que eu dou hoje, eu já dava lá no começo. A história não muda”, afirma.

a califórnia

“A história da Califórnia é uma fonte inesgotável de informações. Hoje, olhando tudo isso a uma distância de cinquenta anos, tenho outra visão. É como se eu tivesse usando um drone e lá de cima pudesse ver coisas que não enxergava quando estava envolvido com sua realização. Vejo a importância de algumas coisas, a fatalidade de outras, até a providência de algumas, porque parece que a gente é ajudado quando tem alguma ideia”.

O evento nasceu após a desclassificação da música “Abirchornado”, uma poesia de Colmar musicada por Júlio Machado (Julinho), ser desclassificada no Festival de Música da Rádio São Miguel, de Uruguaiana. O motivo, ser considerada uma música regional, sem interesse para os parâmetros do festival, fato que impulsionou a criação da Califórnia, com exclusividade para a música do Rio Grande do Sul.

A edição número 1 da Califórnia foi feita em duas etapas. A primeira eliminatória em três noites, de cinco a oito de dezembro e a segunda, a etapa final, de 16 a 19/12, no Teatro Rosalina Pandolfo Lisboa, na época, Cine Teatro Pampa.

Na foto (ao lado), cartaz da primeira Califórnia da Canção Nativa e abaixo, a programação.

as inscrições da primeira edição

Colmar lembra que as inscrições para a primeira edição da Califórnia foram abertas em agosto de 1971 e o festival aconteceria somente em dezembro. “Hoje a gente sabe que tem que abrir inscrição mais próximo da realização. Naquela época, ninguém fazia esse tipo de música. Claro que ninguém mandava nada, ninguém se inscrevia.”

Paixão Côrtes, presidente da Ordem dos Músicos do Brasil – OMB, teve papel decisivo. Ele colocou a sede em Porto Alegre à disposição para receber inscrições de fora da região de Uruguaiana. Muitas músicas eram gravadas de forma precária. “Tinha músico que gravava cantando e marcando o compasso com uma caixa de fósforo, porque não tinha instrumento.”

Paixão tinha um programa de rádio aos domingos de manhã e se entregou de corpo e alma à divulgação da Califórnia. “Ele anunciava: Estão abertas as inscrições para o primeiro festival de música nativa do RS”. E completava: “Até agora não tem nenhuma inscrição’.”

diálogo entre paixão e colmar

Cansado de anunciar o vazio, um dia Paixão ligou para Colmar.

– Não tem nenhuma inscrição aí?

– Não, Paixão, nenhuma.

– Bah tchê, aqui também não tem, tá ruim isso aí, todo domingo eu falo, falo e tenho que dizer que não tem nenhuma… Tu e o Júlio não têm músicas inéditas?

Colmar hesitou. Afinal, ele havia criado o festival, escrito estatuto, regulamento, troféu.

– Nós temos várias músicas inéditas. Agora, ganhar o festival seria antiético.

Paixão riu:

– E tu acha que tu vai ganhar o festival?

Depois veio de Paixão, a comparação campeira:

– Qual é o bolicheiro do Touro Passo que não tem um parelheiro próprio pra desafiar os outros que vem correr carreira?

– Tchê, eu vou conversar os outros, mas ainda não me convenceste.

– Pelo menos eu vou dizer que Uruguaiana tem três músicas escritas.

A ideia não era ganhar, era fazer número. Dar volume. Mostrar que as canções estavam sendo bem recebidas. E assim entraram.

“Foi quase casual. Mas como nós éramos chegados a uma música mais aberta, mais universal, trouxemos isso para a Califórnia.”

Colmar, que desde fevereiro trabalhava pelo festival, em outubro se licenciou do Sinuelo do Pago, onde era patrão e passou a se dedicar à concorrer.

Abichornado, os marupiaras e a califórnia

Uma vez classificada a canção Abichornado para concorrer no festival da rádio, Colmar e Júlio, os autores saíram em busca de intérpretes para sua composição.

“Tu acha que encontramos alguém que se animasse a cantar uma música chamada Abichornado, ao ritmo de milonga, em 1970? Todo mundo torcia o nariz. “Não, isso aí eu não faço”, era o que ouvíamos”. E segue: “Parece mentira, hoje em dia não tem nada mais orgulhoso para a gente do que dizer eu sou gaúcho, usar bota e bombacha. Naquela época era o contrário, era vexatório tu falar que era gaúcho. Ninguém tomava mate na rua. Tomava mate em casa, escondido, mas jamais. Tomar mate na faculdade, era coisa que a gente tomava escondido. Até perguntavam: tu tem o vício do mate? Como se fosse uma coisa feia. Vivíamos numa época muito diferente”, disse. “Vivíamos a época dos Beatles, de Simon & Garfunkel. O mundo todo foi influenciado pela música que surgia”.

Uma das circunstâncias de fundamental importância a que Colmar se refere ao início desta entrevista, foi a participação dos Marupiaras na Califórnia. O grupo vocal precisou ser criado para que um novo estilo de cantar nascesse. O jovens componentes dos Marupiaras, apesar de sua origem no campo, não deixaram de sofrer a influência exercida pela música que encantava a geração da época.

a invenção dos marupiaras

Sem encontrar intérpretes, a solução foi inventar. “Nós tínhamos trinta anos, trinta e poucos e não tinha nada que nos fizesse parar de tentar. Então resolvemos nos inventar.” Nascia assim um grupo vocal, com arranjos a quatro vozes e com acompanhamento instrumental de um teclado.

“Não éramos fanáticos, mas queríamos mudar a música do Rio Grande. Queríamos outro rumo. Se tu olhares o disco da primeira Califórnia, não vais encontrar milonga, vaneira ou valsa. Não tem ritmos. Tem Ternura, Exaltação… A gente classificava o andamento. Era vontade de romper com o passado. Era uma música nova para o Rio Grande. Eu sabia muito bem o que queria e o Júlio também era um empolgado”. 

A primeira formação dos Marupiaras durou cerca de um ano e era integrada por Colmar e o irmão Ricardo Duarte, Tasso Lopes e Júlio Machado. Na saída de Tasso, Cecília Machado passou a fazer parte do grupo. Na segunda formação José Carlos Delgado Claus entrou no lugar de Ricardo. Mais tarde Mauro Lopes substituiu Claus.

No dicionário, Marupiaras, palavra de origem tupi, refere-se a pessoas felizes ou que foram favorecidas pela sorte. Na arte, Marupiaras representa aqueles que trouxeram um novo estilo de música gaúcha para o Rio Grande do Sul.

aprendizado e conexões

“Um dia estávamos ensaiando para a Califórnia e sentimos a necessidade de cantar para o público, de enfrentar uma plateia, tínhamos ido cantar na rádio São Miguel uma vez e, vaiados, fomos embora”, lembra a experiência.

Não descartaram o convite feito pelo sargento Almir Vieira, presidente do Grêmio Tiradentes, para cantarem em um jantar-baile. Onde dividiram espaço com um grupo de rock. No teclado, estava Caco (Antônio Carlos Lara de Souza), um músico cego.

Depois da apresentação, Caco perguntou a Colmar:

– Quantos vocês são?

– Somos quatro.

– Bah, parecem vinte!

No dia seguinte, resolveram convidá-lo para participar do grupo. Caco aceitou de imediato. “Ele era filho de um capataz de uma estância vizinha e eu já tinha visto o Caco sem saber que era ele. Galopava a toda rédea, juntando o gado junto com os demais”.

“Noutra feita encontrei-o tocando gaita de oito baixos na sombra de uma carroça em umas carreiradas. Nós não queríamos que ele tocasse gaita. Queríamos teclado. Nos intervalos dos ensaios, lembro que o Caco descansava tocando Imagine, o mais recente êxito dos Beatles. Era inovação pura, teclado, vocal a quatro vozes, música nova”, declara Colmar, com o brilho nos olhos de quem estava vivendo tudo de novo, naquela lembrança.

Caco no teclado, com Os Marupiaras

a 1ª calhandra

“Não éramos músicos, mas tínhamos bom gosto. O Júlio tinha a palavra final sobre os arranjos, dos quais todos participavam, inclusive o tecladista”.

No palco, Paixão Côrtes entregou aos Marupiaras a Calhandra de Ouro. A canção Reflexão teve letra de Colmar, melodia de Júlio e interpretação de Cecília. A vitória mostrou um novo caminho. “É natural que as pessoas sigam os vencedores, não é? Ah, o caminho é por aqui, eles ganharam a Califórnia, e isso atraiu todo o resto do pessoal, as pessoas viram que a Califórnia não era música chamada gauchesca. Tinha arranjos a quatro vozes, com teclado acompanhando, eles viram que era outra coisa e isso atraiu Luiz Coronel, Marco Aurélio Vasconcellos, Ivaldo Roque, Paulo Ruschel, Gerônimo Jardim e aí veio toda aquela turma de música mais moderna e vieram Telmo de Lima Freitas, Aparício Silva Rillo e Moacir Cunha Resing, todo mundo, e a Califórnia pegou essa força toda”.

indumentária e trajes

“A Califórnia nunca exigiu o uso de bota e bombacha para subir no palco, isso não fazia parte do regulamento”, conta Colmar. Ele segue: “E nós, os Marupiaras, cada noite íamos com uma indumentária diferente, então nos apresentamos de bombacha e bota, de chiripá antigo, tínhamos algumas lindas pilchas. Na última noite cantamos e recebemos a Calhandra de smoking. Queríamos mostrar que, independentemente da roupa, tu podes cantar os temas do Rio Grande com o mesmo sentimento”.

uma aventura em são paulo

Não havia gravadora no RS e as que existiam fora do estado não se interessavam pela música gaúcha. “O Henrique Dias de Freitas Lima, o presidente e organizador da primeira Califórnia, andava com o copião gravado ao vivo na primeira edição, tentando, sem sucesso uma gravadora, até encontrar o Sadi Escalante, um gaúcho ligado à música que vivia em São Paulo e tinha uma indústria de gravação de jingle. Ele se propôs a gravar desde que todos os músicos participantes fossem a SP fazer a gravação em estúdio”. Assim aconteceu.

O disco da primeira Califórnia foi gravado em janeiro de 1972. A viagem foi feita em ônibus cedido pela Planalto Transportes. Chegando lá, os músicos foram acomodados sob as arquibancadas do Estádio do Pacaembu. Havia a necessidade de improvisar cortinas com toalha de banho para um pouco de privacidade na hora do banho. Em função da distante Uruguaiana, desafiaram-se e gravaram tudo em uma única noite.

“Disseram que éramos malucos. Música vocal não se grava assim. Mas na verdade, não tínhamos tempo.”

Os Marupiaras cantaram cinco das dez músicas do LP da primeira Califórnia. Foram três músicas próprias, uma dos Três Xirus e uma de João Machado. Caco ajudou nos arranjos e em outros composições.

Foi uma aventura que marcou a criação de um movimento cultural sem precedentes.

com os olhos da alma

Colmar relembra que viajou de Uruguaiana a São Paulo ao lado de Caco. “O que aprendi com aquele cego me serviu para a vida inteira. Ele me ensinou a enxergar com os olhos da alma. Caco falava das cores, das nuvens, do vento. Para o amigo Caco ele dedicou o romance O Fantasma do Passo do Silvestre. “Tudo isso entrou no romance, como entrou na música”.

Caco dizia:

– Que bonita essa imagem das nuvens submissas indo onde o vento leva. E eu perguntava:

– Como tu sabe que é bonito?

“REFLEXÃO” vencedora da 1ª califórnia, em 1971

Reflexão, foi a música que abriu caminho para uma nova geração. Hoje, quando novas versões surgem, como a gravação recente de Caminhada por Loma, Colmar vê nisso a continuidade viva do movimento. “Isso ajuda a dar outra visão, alcançar outro público, usando uma nova linguagem, mais atual, mais contemporânea”.

Assim nasceu a Califórnia.

Assim ela segue. Memória viva, invenção, coragem e música.

letra de reflexão

Para fugir a tristeza

Por buscar esquecimento,

Desejei ser como o vento

Que vai passando sozinho,

Sem repisar um caminho

Sem conhecer paradeiro

Quis ser nuvem ao pampeiro

Ser a estrela que fulgiu,

Quis ser as águas do rio

Fazendo inveja às areias

Em seu eterno viajar!

Um dia cansei de andar

E desejei novamente

Em vez de rio ser barranca,

Em vez de vento, moirão,

Em vez de nuvem, semente,

Em vez de estrela, ser chão!

Recém então aprendi

Que muita gente maldiz

Sua sorte – insatisfeita

Por não saber que é feliz

E nunca mais invejei

O destino das estrelas,

Que só enfeitam a noite

Porque o sol não pode vê-las;

As nuvens que submissas,

Vão onde o vento as levar

E o vento que passa triste

Porque não pode voltar!

Redação: Giovana Petrocele

Imagens: Acervo de Colmar Duarte

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