Memória – Santa Casa de Caridade

Quando a história começa a ser apagada

Perspectiva dos pavilhões, a época, recém inaugurados
Placa de inauguração dos novos pavilhões
Construção em deterioração

É profundamente inquietante ver a memória de Uruguaiana se esfacelar diante dos nossos olhos.

No bairro Bela Vista, temos um dos grandes tesouros do nosso patrimônio histórico-cultural, o edifício da antiga Santa Casa de Caridade, ainda não tombado. O local não é apenas uma construção inspirada nos melhores hospitais da Europa, na época, mas, também, símbolo da união, fé e coragem da comunidade uruguaianense.

Uma relíquia que pede tombamento

Um dos fatos importantes a destacar é que teve à frente uma mulher, Lina Roballo, fundadora e presidente da Sociedade de Beneficência São João, que ousou sonhar e foi autora do projeto com ambição de futuro, para construir uma Casa de Caridade.

A primeira pedra fundamental foi lançada em 1º de novembro de 1885 e os alicerces vieram em 1886, seguidos pelo silêncio. O projeto parou.

Somente em 20 de setembro de 1897, com o lançamento da segunda pedra fundamental e a organização de uma nova diretoria, a esperança foi retomada.

Memória transformando-se em ruínas

Pensado a partir dos melhores hospitais da Europa as plantas chegaram à fronteira por intermédio do então engenheiro militar Setembrino de Carvalho. Ele expôs diversos projetos, sendo escolhido o mais moderno, que foi encaminhado para estudos e com pequenas alterações que melhor se adaptassem à Uruguaiana.

Vegetação crescendo entre as ruínas dos espaços

O engenheiro Álvaro Crespo de Oliveira foi o responsável pela modificação da planta, apresentando-a à comissão.

Em 24 de janeiro de 1901, finalmente, inaugurava-se o Edifício da Caridade, abençoado pelo padre Vicente Guinea, sob a condução de nomes que ajudaram a erguer não só paredes, mas uma instituição: Vicente José da Maia (Primeiro provedor), Luiz Bettinelli (Tesoureiro), Quintino Gonçalves Gomes (Procurador), Adolpho Martins de Menezes (Escrivão) e Romaguera Corrêa (Intendente Municipal).

Foi uma das dez primeiras Santas Casas do Rio Grande do Sul. Um marco. Um símbolo de cuidado coletivo.

Silêncio e abandono

Depois vieram a capela (atual Capela Nossa Senhora do Horto / Capelania Militar), inaugurada em seis de dezembro de 1914, com a bênção do bispo Dom Hermeto. Um nome importante foi de Joaquim dos Santos Prado Lima, um dos fundadores de Uruguaiana. Graças a um terreno doado por ele, em 1897, e posteriormente vendido, foi possível sua construção.

Atualmente Capela Militar de Uruguaiana

Os novos pavilhões foram inaugurados em oito de julho de 1928, onde, parte dele, serviria de habitação para as irmãs da Congregação Nossa Senhora do Horto, que por vários anos coordenaram o funcionamento interno com trabalho e fé.

CRAS Bela Vista

Após a inauguração da nova Santa Casa em outro local, em 12 de dezembro de 1986, o prédio começou a se deteriorar. Somente uma parte foi reformada, onde hoje funciona o CRAS Bela Vista. A outra continua se deteriorando.

CRAS Bela Vista

É a nossa história morrendo. No espaço moram possibilidades de revitalização, como um centro de cultura, arte e memória, entre outras. Porém, é preciso agirmos enquanto o prédio ainda resiste.

O verdadeiro abandono não está na deterioração. Está na indiferença.

Um espaço que anseia revitalização

Redação/Fotos: Giovana Petrocele

Fonte: Memorial da Santa Casa de Caridade de Uruguaiana / Gennaro Alfano – Pesquisa Dagoberto Alvim