Expressão da Terra

Valéria Surreaux

Escritora e jornalista, é contista e cronista, autora de livros inspirados em Uruguaiana, onde nasceu. Ministra oficinas literárias que têm a cidade como cenário, explorando lendas, personagens populares e históricos de diferentes épocas. Em sua página, Expressão da Terra, título que homenageia seu jornal cultural dos anos 90, ela compartilha contos e causos no melhor estilo “uruguaianês”.

Nesta coluna os contos são escritos em linguagem regional com a presença de vocábulos e expressões usadas na região da fronteira gaúcha, os quais não estão escritos corretamente na língua portuguesa, mas que representam os falares que os uruguaianenses chamam de uruguaianês.

E vez por outra um peão se adoenta, mas desta feita foi na estância do meu tio. Carlito, um baixote corpulento que veio domar uns potro e foi mostrando serviço, pegando no tronco, fazendo bonito, bom no laço, carneava com ligeireza, acabou ficando por lá. De manhazinha foi falar com meu tio na mangueira, estava abichornado!,sentindo o sangue grosso correr nas veias, dor de cabeça, louco de medo da pontada. O tio enconstou as costas da mão na testa do homem.

– Tu tá ardendo em febre, cristão! Vou lá trazer um termômetro.

Voltou rápido com o aparelhinho estranho na mão. Sacudia o braço, olhava o mercúrio, sacudia de novo. Carlito desconfiado. Nunca tinha visto um troço daqueles.

– Levanta o braço, companheiro, e firma, não deixa o termômetro cair de jeito nenhum e também não tira de baixo do braço até eu mandar.

– Pode deixar, sim senhor!

– Vou lá na cozinha ver se minha água já chiou, não me demoro.

– Sim senhor, vou recorrer o campo de trás depois.

– Bueno.

O tio foi à cozinha, a chaleira chiava no fogão à lenha. Encheu a térmica, enquanto Zulmira falava, fazendo fofoca do galpão e perguntando o que queria para o almoço. Ficaram nessa prosa por bom tempo até que ele voltou à mangueira pra supervisionar o serviço.

Ao anoitecer, depois do banho, sentou na varanda pra jogar paciência, sentindo o cheiro do trigo e do guisado de abóbora que já se precipitava pelo corredor.

– Patrão, tô bom! Êta remedinho bom! Fininho, mas cumpridor do dever!

O tio olhou estarrecido pra o homem que, enfim, tirou o termômetro e vinha com o braço espichado em sua direção.

– Gracias, patrão! Bom mesmo. Tô louco de especial, mas remedinho complicado tá aí. Foi meio dificultoso porque foi um tal de apear do cavalo, abrir porteira, fechar porteira, montar no cavalo. Pior as porteiras de cambão, mas o que importa é que valeu o sacrifício, se eu precisar de novo, recorro ao senhor.

Carlito deus as costas. O tio ficou com o termômetro na mão ainda espichada, olhando o horizonte.

Tinha asco do cheiro dele, daquela mão alva com dedos amarelados de nicotina, os dentes estragados. Logo a avó, com tanto nojo de bocas alheias, não mandou o guri a um dentista para dar um jeito naquilo. Seria mais digno, mais generoso do que separar as louças: as da casa e as dos serviçais.

Deu pra chegar borracho nos dias de folga, com cheiro de canha e cigarro de matar mosquito.

Um dia se aventuraram ilicitamente, infiltrando-se naquele quarto amarelo e vasculharam suas gavetas descobrindo um sem número de calcinhas.

– Tarado – sussurrou Marina, com olhos arregalados, segurando uma calcinha de cetim vermelho com a ponta dos dedos.

– Tarado? – perguntou Corinta.

– Tarado que coleciona calcinhas, idiota.

Ela sabia que algo havia de errado naquela inusitada coleção, só não sabia que sua irmã tinha um nome para designar o gosto pouco usual, e sentiu-se, mais uma vez, muito menos esperta que ela, que, já no outro dia, cochichou ao seu ouvido quando o viu passar assoviando a Comparcita: “Fetichista!”

Palavra que primeiro remeteu Corinta a um fumegante prato de massa com cogumelos e molho branco, e depois a um homem que arrumava feixes. De feiche clair. Uma coisa ela tinha certeza: Marina saiu em busca dessa definição com alguma pessoa, ou em algum livro, ou dicionário.

– Fetichista?

– É. É uma tara por calcinhas ou outra coisa, tipo salto alto.

– Salto alto? Como assim?

– Psh! Ele é tarado e a vó nem sabe, vai à cabeleireira, o vô vai ao café e quem nos cuida é o tarado das calcinhas, o fetichista.

“Fetuttini que é a massa. Fetichista é quem gosta de calcinhas e salto alto.”

Aracy, cheirando a talco, atravessa o pátio mormacento.

– Aracy, tu sabia que o Carlos é fetichista?

– Feti o que? É pau pra toda obra? Faz tudo? Isso?

– Não. Tarado.

– Bem que eu notei que ele chuleia minhas ancas quando passo – falou, com um sorriso malicioso -. Deve querer se deitar comigo, o desgracento.

Marina dá uma gargalhada:

– Aracy, o Carlos tem 24 anos e tu 83, criatura.

– Mas não é pra isso que servem os tarados?

Efigênia.
– Sim senhor, seu Marcos – respondeu secando as mãos no avental.
– Cadê meus vidros de cachaça que estavam aqui?
– Umas bola boiando n’água suja? Botei fora, tava podre, até fedendo! Larguei tudo na terra lá pra os lado do galpão.
– Minhas cachaça de butiá que eu mesmo preparei. Não acredito!
– Desculpe, não sabia que era canha, não senhor, mas que tava podre isso tava. Um cheiro de fazer cosca no nariz, uma imundícia. Então é isso que o senhor bica na frente da lareira de noite? Pos bem melhor, canha faz mal pro figo e pras fessura, além de deixar o cristão louco e puxador de briga.
– Por favor, Efigênia, pode te retirar.
Na manhã seguinte quando Marcos tomava o café da manhã com Matilde, entrou o Antero tirando o chapéu.
– Bons dias! Me adesculpem atrapalhar o café, mas venho com uma notícia ruim. Deu uma peste nos seus gansos, cinco já morreram e dois tão cambaleando. Velho Marcos e Matilde olhavam com tristeza os gansos mortos, balançando horizontalmente a cabeça, com os olhos marejados.
– Antero, faz um buraco grande, vamos enterrelá-los e ver se salvamos os que restam.
Virou as costas, com a cabeça baixa, e quando levou mão à porta voltou-se para o peão e gritou:
– Melhor: antes de enterrar depena os peitos, a traseira e o final do lombo. Vamos aproveitar essas penas para fazer travesseiros, que é coisa bem linda travesseiro de pena de ganso, e estamos esperando hóspedes pra Semana Santa. Depois de pronto, sim, enterra os bichos embaixo daquele pé de Paraíso.
Foi tomar mate na varanda, ainda triste pela perda dos animais. Há anos tinha gansos, faziam a guarda melhor que a cachorrada. Mas são os azares da vida…
Pouco antes da hora do almoço, Antero entrou apavorado na sala:
– Patrão, o serviço tá pronto, depenei os ganso, mas eles tão tudo voltando à vida, ansim meio tonto, com os olhos de mormaço, feito Jesus Cristo. Cruz em Credo!
Marcos correu em direção ao local indicado por Antero, dando de cara com os gansos vivos, andando meio de atravessado, mas vivos e depenados, feios como a necessidade.
– Ótie patrão, antes dos bicho ressucitar feito o Nazareno eu achei que eles tivesse se envenenado, porque comeram todas fruita estranha que tão aí jogada na terra. Passou o efeito ou é cosa doutro mundo mesmo – falou, cuspindo um naco de fumo.
– Os butiás das minhas cachaças!