
Genaína Baumart
Jornalista e escritora. Sua escrita nasce da vontade de compreender a vida pela lente da sensibilidade, da filosofia cotidiana e do comportamento humano. Natural de Uruguaiana, escreve a partir do que vive e do que observa: relações, afetos, escolhas e as perguntas que acompanham quem busca sentido nas experiências.
Aqui apresenta crônicas que refletem essa forma de olhar — direta, humana e guiada pela precisão de quem pensa antes de sentir e sente antes de escrever. Cada crônica observa a vida com clareza e instiga quem lê a reconhecer o que sente. Afinal, se puder ver, seja! Seja o desejo, seja a dúvida e, principalmente, a vontade.
O não saber daquilo que sei
Sócrates, o filósofo grego que fez da dúvida um modo de existir, deixou uma frase que ainda hoje nos desconcerta: só sei que nada sei. Ele provavelmente não imaginava o território onde essa frase ganharia sua expressão mais delicada — e mais exigente: a maternidade.
Hoje pela manhã, estava eu diante da minha filha, pequena, ferida de um jeito que só a infância sabe ser — um machucado que dói mais pelo susto do que pela gravidade. Olhei nos olhos dela com a autoridade que ela espera de mim e disse, com voz firme: vai passar. Disse porque sou mãe. Disse porque sou adulta. Disse porque, para ela, eu sei das coisas.
Mal sabe ela que eu nada sei.
Enquanto falava, senti um desconforto estranho, quase um desmascaramento. Não amador, mas infantil. Como se eu estivesse representando um papel grande demais para o meu corpo. A confiança que ofereci a ela não vinha de um lugar organizado ou previsível, nem de uma certeza científica da vida. Vinha de um ponto frágil e improvável: o instinto de não deixar a dor crescer sozinha.
Foi ali que me dei conta do abismo. Meu Deus, eu sou mãe — e não sei ser. Às vezes sei. Às vezes não. Em alguns dias penso que não nasci para maternar. Em outros, tenho a certeza quase violenta de que nasci apenas para isso, porque nada me preenche mais do que ter uma filha. Entre uma afirmação e outra, me equilibro num limite instável, tentando não cair.
Talvez eu esteja delirando. Ou apenas me cobrando por algo que nem sei nomear. O não saber exige uma inteligência cansada, um tipo de atenção constante. O curioso é que esse “não saber” talvez seja o meu maior leque de oportunidades. Ao fingir segurança para ela, acabo, por tabela, ensinando algo a mim mesma. Se sou capaz de olhar para uma criança e afirmar, com precisão quase cirúrgica, que a dor tem fim, por que perco essa voz diante do espelho?
Fico pensando se a vida adulta não é toda feita desse improviso. Se consigo convencer minha filha de que o mundo é seguro, por que tremo diante de uma entrevista de emprego? Por que não levo essa mesma segurança — essa firmeza de mãe — para o mercado de trabalho, para as reuniões, para as escolhas difíceis? Talvez a confiança seja apenas uma questão de perspectiva: se sou o porto seguro de alguém, eu deveria ser, ao menos, o meu próprio cais!
Clarice Lispector, em Um Sopro de Vida, escreveu que viver é um luxo. Mas o que seria esse luxo? Assumir que não sabemos viver? Assumir que nada sabemos como ser? Ou talvez seja só a confusão que a maternidade escancara — não a perfeição, mas o risco.
Volto então à dúvida. Sempre ela. Talvez o não saber só seja enganoso quando fingimos que ele é fraqueza. Talvez a maior sabedoria não esteja em ter respostas, mas em ter a coragem de fazer as perguntas certas e assumir o risco — o risco de errar, de se contradizer, de parecer insegura ou infantil — para ainda assim ser o amparo de alguém.
E se ser mãe — e ser adulta — for isso: não a certeza, mas a coragem de dizer vai passar, mesmo sem saber exatamente como.
A teimosia das sombras
O que somos, afinal?
Do que somos feitos?
Por que vivemos?
Qual é a lógica dessa criação — e dessa vida que segue por si? Entramos ano após ano, fazemos aniversário, aprendemos, sofremos, perdemos, ganhamos. Sobrevivemos.
Às vezes, saboreamos. Experienciamos. Mudamos. Transformamos. Criamos.
E ainda assim, não sabemos. Não sabemos o quê, nem porquê somos.
Martin Heidegger dizia que só despertamos de verdade quando nos percebemos como “ser-para-a-morte”. Não a morte como teoria distante, mas como experiência que invade o corpo; quando a finitude deixa de ser ideia e passa a ser falta de ar.
O espiritismo me oferece uma resposta possível — não definitiva, mas respirável.
Allan Kardec fala da vida como continuidade, não como rompimento. Diz que isso aqui não é a vida em si, é passagem. Travessia. Um intervalo entre estados. Ao menos, é assim que meus olhos conseguem entender. É como escreveu Guimarães Rosa: “Viver é um descuido prosseguido… o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” E que travessia pesada ela se torna em certos dias.
Há dias em que uma lembrança dos meus pais, ou uma fotografia, me faz colapsar.
O coração acelera e para ao mesmo tempo. Os ossos doem. O corpo inteiro se contrai num choro que parece pânico — um pânico de existir. Como se eu tivesse sido arrancada de um mundo conhecido e lançada num labirinto escuro. Eu vejo a fotografia. Vejo a matéria. Vejo o corpo. Os olhos, a boca, o sorriso. As mãos que tantas vezes me seguraram. E essa matéria — esse corpo — não existe mais. Não há mais o som da voz, nem o cheiro, nem o toque. Não há. E então a pergunta retorna, mais cruel: o que existe agora?
Agora, estou diante da foto do meu pai: sinto que ele me olha de volta, um olhar que não aceita o tempo nem a distância. Meus olhos se prendem aos dele e eu paraliso, suspensa em um instante que não me pertence mais. Esse olhar me fere porque ele não é uma lembrança, é uma presença que denuncia o vazio. Ele toca exatamente no nervo exposto, na ferida que não cicatriza. É como se a imagem fosse um anzol me puxando para fora da realidade, me forçando a encarar o que a morte tentou apagar, mas a tecnologia, cruelmente, guardou.
Sempre me senti chamada pelos registros. “Congelar o tempo”, dizem. Eu congelei muitos. Faço isso quase como uma resistência, um esforço de quem, como Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão, tenta colocar etiquetas nas coisas e nas pessoas para que a peste do esquecimento não as apague. É como se as fotos fossem aquele cordão que a gente segura para não se perder e conseguir voltar para casa dentro do labirinto da própria memória. Mas hoje, olhando nos olhos do meu pai, ele está vivo.
Congelei a matéria dele. A mesma matéria que virou pó. A mesma que vi partir. Carl Jung dizia que memória não é apenas função do cérebro, mas algo que habita um campo mais profundo, simbólico, vivo. Talvez aquilo que amamos continue existindo em outra frequência. Não visível, mas sentida. E aqui estou eu: coração disparado, ar em falta, o pânico nu de saber que ele não está mais aqui.
O espiritismo — consolador e esperançoso — ensina que ninguém parte de verdade, apenas muda de estado. Que há mais do que a matéria denuncia. Albert Einstein, curioso e quase místico, dizia que a separação entre passado, presente e futuro é uma “ilusão persistente”. Talvez seja por isso que, diante dessa foto, o ontem ainda me olha agora.
Diante dos olhos do meu pai me olhando, só consigo perguntar: o que ele quer me dizer? Quem ele realmente quer ver? E por que essa foto — esse olhar — me puxa, me prende, me suspende no tempo? A foto está congelada. Mas sou eu que virei estátua diante dela. Tentando entender o que se faz da vida. Qual é a graça dessas chegadas e partidas. Qual é a lógica de acordar e dormir, de ver os dias passarem, o tempo escorrer, enquanto entendemos quase nada.
Não somos nada — mas temos a ganância de ser tudo. Não temos nada — mas desejamos possuir o mundo. Não levamos nada — mas lutamos para carregar o todo. E, mesmo quando achamos que sabemos, somos profundamente ignorantes de nós mesmos.
Talvez os grandes pensadores tenham enlouquecido porque ousaram olhar esse abismo sem desviar o rosto. Friedrich Nietzsche nos avisou: “Se olhares muito tempo para dentro de um abismo, o abismo olhará para dentro de ti”. Agora talvez eu saiba que quem olha demais, talvez, não consiga mais fingir normalidade; a verdade da impermanência sufoca a ficção do cotidiano.
Energia e matéria se misturam. Consciência e corpo se emaranham. Somos construídos para, um dia, abandonar essa forma — essa capa — e seguir. Para onde? Não sabemos. Talvez para outros abismos. Talvez para casa.
A fotografia congela para que algo permaneça.
Até que um dia, alguém — talvez — até dela se esqueça.
Um 2026 com menos embutidos na alma
Você se lembra de quem era no início deste ano? Eu até me lembro — com a nitidez turva de quem viu o tempo passar mais rápido que a própria respiração.
Em janeiro, minha única promessa — sincera e quase tímida — era ser mais saudável. Pense nisso: eu acreditava que cuidar de mim era apenas colocar o corpo em movimento; era a conta aritmética entre academia, menos refrigerante e o fim dos embutidos. Era uma ingenuidade quase doce.
Consegui mudar alguns hábitos até abril ou maio, quando a vida, sendo apenas a vida, sacudiu os trilhos e me empurrou para um desvio que não constava no mapa. Afinal, o que é o tempo senão um trem que não espera a gente terminar de arrumar a mala?
Em 2025, tive que aprender que saúde não se resolve só com suor e salada. Tive que ser casulo de mim mesma, entender que o que estava pendente não era só físico — era emoção e a necessidade de olhar para dentro e dizer: “Aqui estou.” E parei de adiar: fiz meus óculos, ironicamente, para enxergar melhor. E, sabe? Ainda há tanto que eu não vejo, embora eu perceba.
Todo fim de ano, tenho três músicas que são mantra: A Lista, de Oswaldo Montenegro, Amor pra Recomeçar, do Barão Vermelho — e O Que É, O Que É, de Gonzaguinha. Três trilhas sonoras para quem tenta controlar tudo: planos até 2027, metas calculadas, vidas previstas como se o futuro fosse uma equação.
É quando recordo o que minha terapeuta diz com a paciência de quem conhece o caos: “Solte. Nada se controla. Ouça: nada se controla. Planeje, claro — mas não tente segurar o vento com as mãos”.
Ao exercitar diariamente esse mantra, quero te dar um conselho — justo eu, que não tenho nada certo para aconselhar. Só sou alguém que já viveu erroneamente em estações onde nem deveria ter desembarcado: a vida não obedece ao nosso desejo de controle, e o controle costuma ser só um jeito sofisticado de chamar medo pelo primeiro nome.
Aqui estou eu, me dispondo a me aconselhar — e a te oferecer — um 2026 espetacular:
Use filtros na alma: não deixe qualquer angústia entrar sem que antes ela se explique.
Não se culpe pela academia abandonada: às vezes, o maior exercício de resistência é manter a sanidade mental enquanto o mundo lá fora parece um caos ensurdecedor de expectativas.
Reaplique esperança depois dos tombos.
Hidrate a alma com gentileza, principalmente nos dias em que for difícil ser leve.
Mime o seu corpo, mas entenda que ele é apenas a casa; não adianta pintar a fachada se as infiltrações estão na alma.
Desconfie do “tudo ou nada”; ele é preguiçoso e dramático.
Aprenda a dizer “não” sem se justificar demais — justificativa em excesso é a culpa tentando virar argumento.
Não transforme planejamento em algema: planeje como quem prepara uma mochila, não como quem desenha o caminho inteiro.
Peça ajuda antes de virar um herói cansado.
Escolha uma coragem pequena por dia.
Trate a sua paz como item essencial, não como prêmio de produtividade.
Seja honesto, principalmente quando ninguém estiver aplaudindo.
Solte as rédeas: a vida é um rio de correnteza própria; se você tentar nadar contra o fluxo o tempo todo, chegará exausto demais para aproveitar a margem.
Aceite que algumas pessoas vão ficar na estação anterior. Não é crueldade — é física: o peso que a gente carrega determina a velocidade da subida.
Honre quem se foi.
Não puxe ninguém pelo braço se o destino deles for outro.
Entenda que a saúde emocional é o verdadeiro suco detox: perdoar um erro antigo emagrece mais que três meses de dieta intermitente.
Cuidado com a fé assimétrica: o milagre é uma encomenda que só chega se encontrar o endereço da sua coragem.
Erre! Erre com a mesma vontade com que você quer acertar: o erro é o rascunho da obra-prima.
Quando a vida trocar os trilhos, não gaste energia xingando a paisagem: ajuste o passo, reduza a velocidade e continue. Porque tem um tipo de vitória quieta — que é simplesmente seguir com dignidade, mesmo quando o roteiro não colabora.
Eu já escolhi a cor da virada. Já escrevi minha carta de gratidão a 2025 e meus votos para 2026. Já busquei todos os patuás possíveis; tenho em mim uma fé que me faz acreditar que 2026 será um dos melhores anos da minha vida.
Mas há uma sombra, sabe? Olho ao redor e penso: quem ficará para trás?
Essa lógica da vida — de seguir e perder gente pelo caminho — é das poucas coisas que nunca se ajeitam em palavras bonitas. A vida empurra, e a gente olha para um lado, para o outro, e não entende por que alguns ficam enquanto outros seguem.
O ano que vem terá Copa, eleição, feriados e lista de material escolar. Terá o cotidiano, esse bicho-preguiça que nos devora. Esta nova estação trará trens incertos, nos quais você terá que embarcar. Terá também trens novos em trilhos gastos, sim, porque muita gente já tentou ser feliz antes de nós, e o caminho está marcado.
Não esqueça que nesta caminhada é necessário algumas coisas soltar – solte.
Disciplina, sim; rigidez, não.
Tenha compaixão, bondade e honestidade.
Honre a si, honre seus sonhos e aqueles que caminham ao seu lado.
Eu não cumpri a promessa da academia, nem a da dieta perfeita — talvez tenha até reduzido o refrigerante, o que já é uma vitória possível. Mas sabe o que é mais bonito? Ganhei planos que não estavam no meu roteiro. Fui saudável no olhar — no cuidado com as relações, na construção de limites e no simples ato de dizer “não”.
Eu me olhei de verdade e, ouso dizer, aprendi a me amar.
Não virei a atleta do ano, mas descobri que consigo me encarar no espelho sem querer quebrar o vidro. Isso é ser saudável. Isso é estar no trilho, mesmo que ele agora atravesse uma estrada que eu não planejei.
2026 merece que tenhamos menos controle, menos cobrança e mais constância.
A vida é o que é, como diz o Gonzaguinha. E o que é, é bonito — precisamente por sermos, autenticamente humanos.
Solte as mãos do trilho. O trem sabe o caminho.
Feliz 2026, com menos embutidos na alma e muito mais amor pelo que ficou — e pelo que virá.
Se puderes ver, seja
E não é que eu, por descuido, fui visitada pela tal da cegueira branca?
E digo: não foi falta de luz — foi exagero dela.
O mundo ficou fosco, espesso, um filtro silencioso sobre a realidade. O corpo desacelerando e a ansiedade puxando o tapete do meu olhar. Uma crise. Daquelas que roubam o eixo, o ar e a nitidez..
Ali, no coração daquela névoa, foi impossível não retomar Saramago em Ensaio sobre a cegueira: aquele lugar onde todos viam e não enxergavam, onde a claridade brutal desorientava mais do que guiava — uma luz que não iluminava, apenas expunha.
Foi ali que, numa lucidez dolorida, percebi há quanto tempo também não via.
Clamei ajuda, tentei agarrar algum foco, algum contorno.
E, no desespero, me perguntei se eu tinha desaprendido a sentir — ou se, na verdade, eu nunca tinha aprendido a não sentir. Talvez aquela claridade fosse exatamente o transbordo dos sentimentos acuados, quietos, acomodados, amedrontados, pedindo para serem rasgados antes de cegarem de vez.
Saramago fala do risco lento de nos tornarmos impermeáveis — de caminharmos pelos dias sem deixar que nada nos toque, andando pelas horas como quem evita qualquer fresta por onde a vida possa entrar. Eu temi isso com um medo mudo, quase infantil.
E, talvez por medo, quis encontrar de novo algum traço que me devolvesse existência.
Não ver algo grandioso — apenas ver alguma coisa.
Algo que me lembrasse que eu ainda estava ali.
Foi assim que comecei a reparar no óbvio.
No valor bruto dos sentimentos.
No susto de ainda ter um coração que sangra, quando o mundo inteiro parece empenhado em mascarar o próprio tremor. Porque, à medida que eu voltava a sentir, percebia o quanto nos empurram ao contrário: vivemos um pacto silencioso contra o afeto.
Como se demonstrar cuidado fosse ingenuidade. Como se gostar fosse imprudente.
Como se sentir fosse um descuido imperdoável.
As pessoas fogem daquilo que as desnuda.
Fogem do espelho que o afeto oferece.
E é aí que a gente se pega dançando essa coreografia exausta do moderno gostar: um ensaio de aproximação seguido de um recuo ansioso; um quase-encontro desmanchado por um silêncio que não declara nada, mas deixa no ar o peso da confissão muda de quem recuou antes da hora.
O mundo nos convenceu de que sinceridade assusta — mas desinteresse, não.
É permitido ser seco. É exigido ser duro. Então a gente se encolhe. Se vigia. Se poda. Finge naturalidade quando o que queria era ser realmente vista.
E ainda chamam isso de maturidade.
Não. Eu me recuso a essa cegueira.
Aceito a minha, a que vem das crises, convivo com ela, mas jamais estarei pronta para aquela outra, a ensaiada, a conveniente, a que escolhe a frieza para não correr riscos.
Eu, eu vivo de afeto: a vida me chama, e eu me ofereço de volta.
Gosto de reparar, gosto de sentir, gosto de olhar o outro como quem olha uma janela aberta. Se isso me expõe, que exponha. Se isso me torna humana demais, que seja exatamente essa a minha defesa.
Saramago escreveu: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
Eu acrescento: Se podes sentir, não te poupes.
O coração é de carne — e é por sangrar que prova que está vivo.
Não vou permitir que o mundo me ensine a frieza.
Nem que a ansiedade me tire da vida a beleza.
Eu vejo — e reparo. Enxergo com lucidez suficiente para não aderir à desumanização disponível. É simples e urgente: eu quero estar. Com tudo o que vejo. Com tudo o que me vê. Na vertigem nítida da claridade de quem repara e enxerga.