Se Puderes Ver, Seja

Genaína Baumart

Jornalista e escritora. Sua escrita nasce da vontade de compreender a vida pela lente da sensibilidade, da filosofia cotidiana e do comportamento humano. Natural de Uruguaiana, escreve a partir do que vive e do que observa: relações, afetos, escolhas e as perguntas que acompanham quem busca sentido nas experiências.

Aqui apresenta crônicas que refletem essa forma de olhar — direta, humana e guiada pela precisão de quem pensa antes de sentir e sente antes de escrever. Cada crônica observa a vida com clareza e instiga quem lê a reconhecer o que sente. Afinal, se puder ver, seja! Seja o desejo, seja a dúvida e, principalmente, a vontade.

John Lennon dizia que “a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. Eu penso nessa frase com uma frequência absurda, tentando aprender a ser exatamente assim: acontecendo. Porque, na prática, eu sou o oposto.

Tenho quase como vício arquitetar o amanhã. Adoro fazer planos — mesmo os que não cumpro. E, paradoxalmente, detesto uma vida inteira planejada.
Sou metódica. Gosto do ensaio, do cenário perfeito e da fala decorada. Faço planos como quem constrói uma fortaleza, acreditando piamente que, se eu antecipar cada detalhe — até o que vai na mala daqui a três meses — o destino se sentirá intimidado pela minha organização e não ousará me desapontar.
É a minha falsa segurança. Um acordo silencioso que faço comigo mesma para passar pelo dia sem a sensação de estar à deriva.

E quando algo foge do previsto, minha cabeça fica o que costumo chamar de “solta”. Bagunçada. Confusa.
Como se alguém tivesse dançado sobre as peças que alinhei com cuidado dentro do cérebro para me sentir segura.
Essa teimosia em querer o mapa da mina antes mesmo de começar a cavar, acredito não ser exclusividade minha.
Afinal, somos seres estranhamente humanos, equilibrando-nos numa corda bamba exaustiva: queremos o controle, mas detestamos a previsibilidade.

Sei que lá fora a vida está passando, enquanto sigo eu aqui a questionando.
Mas se a vida acontece enquanto eu faço planos, como é que eu faço a vida acontecer sem eles?

Neste momento, estou tentando planejar uma viagem com a minha filha. Porém, cada vez que a agência pergunta se pode fechar o pacote, eu grito por dentro: “Sim, pode!”. Já me vejo andando por aquelas ruas com a Luísa. Mas finjo que não vi a mensagem. Como posso ter a segurança de planejar algo para daqui a meses se não sei o que a vida me reserva até lá? É contraditório para alguém que ama planejar, mas assumir esse risco é me colocar no looping dos “e se”: e se chover? E se o vírus da Índia chegar? E se eu perder o emprego? Crio tantos obstáculos hipotéticos que acabo ficando paralisada, apenas sonhando o plano, sem coragem de vivê-lo.

É a tal da autossabotagem, não é? Coisas ruins sempre vão acontecer, assim como as boas — e as boas, desconfio, estão sempre mais perto do que imagino, esperando apenas o meu “sim” para serem vividas.

Outra noite, já cansada de tanto buscar certezas, pedi socorro aos livros. Escolhi reler A Descoberta do Mundo. Eu precisava de uma resposta para essa ansiedade e Clarice, como sempre, me trouxe a sua lucidez perigosa: Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.”

Obrigada, Clarice, por me lembrar que eu preciso ser mais distraída com a minha própria vida. Eu me agarro às certezas para não afundar, como se os planos fossem tábuas de salvação. Mas que tolice. O medo do vazio me faz esquecer que a gente só descobre que sabe nadar quando nos falta o chão.

Minhas maiores certezas me levaram para caminhos incertos e que me ensinaram que neles há bem mais beleza.
Pensando nisso, lembro da frase do Rubem Alves que diz: “Cheguei onde cheguei porque tudo que eu planejei deu errado.
E não é assim que a vida vem e debocha daquele castelo que queríamos tanto ter construído?
O que planejamos dá errado para que, ironicamente, as coisas deem certo; quero acreditar muito nisso, sim.
Até porque meus planos deram muito errado, mas ainda assim, aqui estou. Viva. Escrevendo. Criando uma filha.
Descobrindo outros caminhos.

Quem sabe vivendo, a minha própria descoberta do mundo
— porque, planejando ou não, o acaso nunca me encontra completamente desprevenida.

E por pensar demais, desta vez resolvi sair de casa e deixar a carta chegar.
Decidi que, por ora, vale a pena arriscar. Confirmei o pacote. Vamos viajar.
O frio na barriga continuará por aqui, perguntando sobre a fatura do cartão e a previsão do tempo, mas escolho acreditar que aprendi a ser mais “distraída” com a minha previsibilidade. Organizar o trabalho e a rotina é o que me cabe, mas lá, na hora de pôr o pé no mundo, vou permitir que a vida aconteça sem tentar dirigir cada detalhe.

A segurança, sabemos, é uma ilusão bonita, mas a liberdade de ver os planos darem errado e, ainda assim, chegar ao lugar certo, é a certeza esperançosa de que a vida é um presente que não nos cobra tantas garantias.

A Anatomia da Paralisia

Minha filha me perguntou do que eu tenho medo.
Eu poderia ter falado da finitude, da falta de dinheiro, da angústia de não vê-la crescer. Mas, para poupá-la das minhas sombras, falei do meu medo de cobra. Disse que ela analisa o nosso medo e ataca no momento certo. No fundo, eu falava de nós — ou da vida, ainda não sei.
O medo é esse animal selvagem que alimentamos no canto da sala. Ele não espera o perigo real; nutre-se da nossa paralisia.
Somos nós que rastejamos em volta das próprias certezas, esperando o bote de uma vida que simplesmente não se deixa controlar.

Eu temo não ter o controle.
Preciso da ilusão de ter algo nas mãos — uma segurança, uma garantia estendida de vida e na vida. Mas, sendo quem sou, também me reconheço naquela que deixa ser, que deixa ir e que vive na contradição entre o real, o sonho e a ilusão. A pergunta que não cala é como equilibrar a sede pela lógica e pela certeza com a consciência de que nada é controlável, nada é infinito.

Quantos dos nossos medos moram apenas no imaginário?
Situações ruins que nunca aconteceram, pensamentos intrusivos que sufocam o cérebro, roubam energia e nos mantêm sempre em alerta. Tenho aprendido a lidar com eles, a trabalhar essa narrativa e a deixar ir. Esse deixar ir, esse soltar, é o que mais exercito em terapia. Porque, talvez, o medo de não ter algo sólido comigo e estável, me leve à autossabotagem. E, convenhamos: a gente se sabota porque prefere o medo conhecido ao campo aberto das possibilidades.

Que ironia. A vida real é justamente o campo do imprevisível.
Tudo dura o tempo que tem que durar; a gente é que gasta energia tentando controlar o ponteiro.

Talvez eu tema a cobra exatamente porque ela me desafia. Ela analisa a minha paralisia, rasteja e, no momento certo, ataca, sufoca, engole.
Se um dia eu a olhar de frente, ou ela me devora, ou eu finalmente terei a audácia de ir embora das prisões que eu mesma criei tentando estar certa. Dizem que o segredo não é fugir do bote, mas encarar o bicho até que ele perceba que já não tem o que consumir.

Tenho me preparado a vida toda para esse encontro.
Escrevendo, lembro-me de que essa preparação — ou essa coragem — vem alimentada por uma canção que sempre ouvi:

“Go ahead, release your fears Stand up and be counted Time asks no questions, it goes on without you Leaving you behind if you can’t stand the pace The world keeps on spinning, can’t stop it if you try to The best part is danger staring you in the face”

“Vá em frente, liberte seus medos. Assuma suas responsabilidades. O tempo não faz perguntas, ele continua sem você, deixando-o para trás se você não puder acompanhar o ritmo. O mundo continua girando; mesmo se tentar, você não pode pará-lo. A melhor parte é o perigo te encarando de frente.”

Enquanto ainda não entendo se temo a cobra ou a vida depois do medo — se existe um mundo após ele ou se é ali, exatamente ali, que a vida começa — sigo tateando esse lugar onde a paralisia já não manda tanto. Como todo ser humano, sei que não é o medo que me define.
É a coragem imperfeita de continuar mesmo sem controle, mesmo sem garantias.
Sem saber se, ao encarar o perigo de frente, serei devorada — ou, finalmente, livre.

De que jeito você precisa?

Este texto — ou melhor, esse desabafo — é pra você que, como eu, ama casa cheia de plantas e flores, mas nunca sabe exatamente como cuidar delas. Você compra, escolhe com carinho, organiza o espaço. Elas ficam ali, no lugar pensado para harmonizar o ambiente, perfumar a casa, trazer aquela harmonia e paz.

Os dias passam. Às vezes você lembra de regar, de mudar de lugar, de deixá-las pegar um ar. Mas, no fundo, já sabe: não vão durar. Nunca duram. Parece que vêm com prazo de validade invisível.

E depois, o que se faz? Joga fora. Compra outras. Repete o ritual. Cuida do jeito que consegue, do jeito que sabe. Pesquisa dicas, assiste a vídeos, pergunta pra quem entende. Mas quase sempre esquece de dar a elas o tempo necessário.

Eu, no meu caso, estou espantada de um jeito feliz. Tenho um lírio comigo desde maio do ano passado. Vivo. Vejam só: eu venci. Bati meu recorde botânico.

Esses dias, inclusive, cheguei a contatar uma floricultura em busca de consultoria sobre as melhores plantas para apartamento. Recebi, em troca, uma aula de biologia que claramente perdi no ensino médio — e que confesso, achei burocrática demais.

Pega sol onde? Quanto tempo de sol? Ventila? De que jeito você precisa?

A pergunta, que era sobre a planta, virou-se contra mim como um espelho inesperado. O que eu preciso? E de que jeito? Deixei de pensar na planta para questionar a minha própria existência.

Quero facilidade? Claro que quero. Detesto burocracia. Sou prática, objetiva e ansiosa para viver o melhor da vida. Hoje, o que eu preciso é simples e difícil ao mesmo tempo: ter a terapia em dia, ser uma ótima mãe pra minha filha, me manter inteira, pagar as contas sem me matar de trabalhar, pegar sol quando der vontade e, quando não der, ficar na sombra sentindo o vento passar.

Eureka, né? Somos natureza tentando dar certo dentro da própria natureza.

Essas flores e plantas que tenho em casa estão aqui pra me lembrar que a vida é passageira.
Que eu não tenho nada sob controle. Que mesmo sabendo ler manuais — e sem nunca ter feito biologia — eu ainda tento.
E, às vezes até consigo.

O tempo que elas ficam comigo depende só de mim? Ou posso culpar a biologia, o clima, o acaso? Eu cuido do que tenho: plantas, bichos, objetos, pessoas.
Mas também não sufoco. Deixo ir. Quantos animais perdi dizendo que não teria mais? Quantas plantas sinto até hoje não ter?

Meus gatos vivem derrubando vasos, comendo folhas, espalhando terra. Teve uma — e não se surpreendam — cujo nome eu nunca soube. Mas eu a amava na sala. Nunca mais encontrei outra igual. Ainda olho para o canto onde ela ficava e sinto falta. Com as pessoas é parecido. Algumas escolheram não estar mais ao meu lado. Outras o destino levou pra longe. E há aquelas cuja energia eu ainda sinto — às vezes no espelho, às vezes bem perto.

O que eu quero dizer com tudo isso? Que por muito tempo me culpei por não saber cuidar de plantas. Evitava até tê-las em casa. Afinal, eu não sei cuidar — logo, elas vão secar, e eu vou precisar descartar. Foram crenças que me impediram de viver novas experiências, novas folhas, novas primaveras — em qualquer mês, em qualquer estação.

Aprendi, com a terapia que eu não controlo o tempo delas, nem o meu, nem o de ninguém. Posso não ser uma expert em botânica, mas entendi que a energia que elas trazem para o meu canto vale o risco. Eu não desisto. Faço o meu máximo: rego, preparo o lugar e ofereço o que tenho, mesmo sabendo que a finitude faz parte do pacote.

E quem quiser — pelo tempo que a vida permitir — ficará por aqui ao meu redor, entre o sol, o ar e a água. Entregue a esse meu jeito de cuidar.

O não saber daquilo que sei

Sócrates, o filósofo grego que fez da dúvida um modo de existir, deixou uma frase que ainda hoje nos desconcerta: só sei que nada sei. Ele provavelmente não imaginava o território onde essa frase ganharia sua expressão mais delicada — e mais exigente: a maternidade.

Hoje pela manhã, estava eu diante da minha filha, pequena, ferida de um jeito que só a infância sabe ser — um machucado que dói mais pelo susto do que pela gravidade. Olhei nos olhos dela com a autoridade que ela espera de mim e disse, com voz firme: vai passar. Disse porque sou mãe. Disse porque sou adulta. Disse porque, para ela, eu sei das coisas.

Mal sabe ela que eu nada sei.

Enquanto falava, senti um desconforto estranho, quase um desmascaramento. Não amador, mas infantil. Como se eu estivesse representando um papel grande demais para o meu corpo. A confiança que ofereci a ela não vinha de um lugar organizado ou previsível, nem de uma certeza científica da vida. Vinha de um ponto frágil e improvável: o instinto de não deixar a dor crescer sozinha.

Foi ali que me dei conta do abismo. Meu Deus, eu sou mãe — e não sei ser. Às vezes sei. Às vezes não. Em alguns dias penso que não nasci para maternar. Em outros, tenho a certeza quase violenta de que nasci apenas para isso, porque nada me preenche mais do que ter uma filha. Entre uma afirmação e outra, me equilibro num limite instável, tentando não cair.

Talvez eu esteja delirando. Ou apenas me cobrando por algo que nem sei nomear. O não saber exige uma inteligência cansada, um tipo de atenção constante. O curioso é que esse “não saber” talvez seja o meu maior leque de oportunidades. Ao fingir segurança para ela, acabo, por tabela, ensinando algo a mim mesma. Se sou capaz de olhar para uma criança e afirmar, com precisão quase cirúrgica, que a dor tem fim, por que perco essa voz diante do espelho?

Fico pensando se a vida adulta não é toda feita desse improviso. Se consigo convencer minha filha de que o mundo é seguro, por que tremo diante de uma entrevista de emprego? Por que não levo essa mesma segurança — essa firmeza de mãe — para o mercado de trabalho, para as reuniões, para as escolhas difíceis? Talvez a confiança seja apenas uma questão de perspectiva: se sou o porto seguro de alguém, eu deveria ser, ao menos, o meu próprio cais!

Clarice Lispector, em Um Sopro de Vida, escreveu que viver é um luxo. Mas o que seria esse luxo? Assumir que não sabemos viver? Assumir que nada sabemos como ser? Ou talvez seja só a confusão que a maternidade escancara — não a perfeição, mas o risco.

Volto então à dúvida. Sempre ela. Talvez o não saber só seja enganoso quando fingimos que ele é fraqueza. Talvez a maior sabedoria não esteja em ter respostas, mas em ter a coragem de fazer as perguntas certas e assumir o risco — o risco de errar, de se contradizer, de parecer insegura ou infantil — para ainda assim ser o amparo de alguém.

E se ser mãe — e ser adulta — for isso: não a certeza, mas a coragem de dizer vai passar, mesmo sem saber exatamente como.

A teimosia das sombras

O que somos, afinal?
Do que somos feitos?
Por que vivemos?

Qual é a lógica dessa criação — e dessa vida que segue por si? Entramos ano após ano, fazemos aniversário, aprendemos, sofremos, perdemos, ganhamos. Sobrevivemos.
Às vezes, saboreamos. Experienciamos. Mudamos. Transformamos. Criamos.
E ainda assim, não sabemos. Não sabemos o quê, nem porquê somos.

Martin Heidegger dizia que só despertamos de verdade quando nos percebemos como “ser-para-a-morte”. Não a morte como teoria distante, mas como experiência que invade o corpo; quando a finitude deixa de ser ideia e passa a ser falta de ar.

O espiritismo me oferece uma resposta possível — não definitiva, mas respirável.
Allan Kardec fala da vida como continuidade, não como rompimento. Diz que isso aqui não é a vida em si, é passagem. Travessia. Um intervalo entre estados. Ao menos, é assim que meus olhos conseguem entender. É como escreveu Guimarães Rosa: “Viver é um descuido prosseguido… o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” E que travessia pesada ela se torna em certos dias.

Há dias em que uma lembrança dos meus pais, ou uma fotografia, me faz colapsar.
O coração acelera e para ao mesmo tempo. Os ossos doem. O corpo inteiro se contrai num choro que parece pânico — um pânico de existir. Como se eu tivesse sido arrancada de um mundo conhecido e lançada num labirinto escuro. Eu vejo a fotografia. Vejo a matéria. Vejo o corpo. Os olhos, a boca, o sorriso. As mãos que tantas vezes me seguraram. E essa matéria — esse corpo — não existe mais. Não há mais o som da voz, nem o cheiro, nem o toque. Não há. E então a pergunta retorna, mais cruel: o que existe agora?

Agora, estou diante da foto do meu pai: sinto que ele me olha de volta, um olhar que não aceita o tempo nem a distância. Meus olhos se prendem aos dele e eu paraliso, suspensa em um instante que não me pertence mais. Esse olhar me fere porque ele não é uma lembrança, é uma presença que denuncia o vazio. Ele toca exatamente no nervo exposto, na ferida que não cicatriza. É como se a imagem fosse um anzol me puxando para fora da realidade, me forçando a encarar o que a morte tentou apagar, mas a tecnologia, cruelmente, guardou.

Sempre me senti chamada pelos registros. “Congelar o tempo”, dizem. Eu congelei muitos. Faço isso quase como uma resistência, um esforço de quem, como Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão, tenta colocar etiquetas nas coisas e nas pessoas para que a peste do esquecimento não as apague. É como se as fotos fossem aquele cordão que a gente segura para não se perder e conseguir voltar para casa dentro do labirinto da própria memória. Mas hoje, olhando nos olhos do meu pai, ele está vivo.

Congelei a matéria dele. A mesma matéria que virou pó. A mesma que vi partir. Carl Jung dizia que memória não é apenas função do cérebro, mas algo que habita um campo mais profundo, simbólico, vivo. Talvez aquilo que amamos continue existindo em outra frequência. Não visível, mas sentida. E aqui estou eu: coração disparado, ar em falta, o pânico nu de saber que ele não está mais aqui.

O espiritismo — consolador e esperançoso — ensina que ninguém parte de verdade, apenas muda de estado. Que há mais do que a matéria denuncia. Albert Einstein, curioso e quase místico, dizia que a separação entre passado, presente e futuro é uma “ilusão persistente”. Talvez seja por isso que, diante dessa foto, o ontem ainda me olha agora.

Diante dos olhos do meu pai me olhando, só consigo perguntar: o que ele quer me dizer? Quem ele realmente quer ver? E por que essa foto — esse olhar — me puxa, me prende, me suspende no tempo? A foto está congelada. Mas sou eu que virei estátua diante dela. Tentando entender o que se faz da vida. Qual é a graça dessas chegadas e partidas. Qual é a lógica de acordar e dormir, de ver os dias passarem, o tempo escorrer, enquanto entendemos quase nada.

Não somos nada — mas temos a ganância de ser tudo. Não temos nada — mas desejamos possuir o mundo. Não levamos nada — mas lutamos para carregar o todo. E, mesmo quando achamos que sabemos, somos profundamente ignorantes de nós mesmos.

Talvez os grandes pensadores tenham enlouquecido porque ousaram olhar esse abismo sem desviar o rosto. Friedrich Nietzsche nos avisou: “Se olhares muito tempo para dentro de um abismo, o abismo olhará para dentro de ti”. Agora talvez eu saiba que quem olha demais, talvez, não consiga mais fingir normalidade; a verdade da impermanência sufoca a ficção do cotidiano.

Energia e matéria se misturam. Consciência e corpo se emaranham. Somos construídos para, um dia, abandonar essa forma — essa capa — e seguir. Para onde? Não sabemos. Talvez para outros abismos. Talvez para casa.

A fotografia congela para que algo permaneça.
Até que um dia, alguém — talvez — até dela se esqueça.

Você se lembra de quem era no início deste ano? Eu até me lembro — com a nitidez turva de quem viu o tempo passar mais rápido que a própria respiração.
Em janeiro, minha única promessa — sincera e quase tímida — era ser mais saudável. Pense nisso: eu acreditava que cuidar de mim era apenas colocar o corpo em movimento; era a conta aritmética entre academia, menos refrigerante e o fim dos embutidos. Era uma ingenuidade quase doce.
Consegui mudar alguns hábitos até abril ou maio, quando a vida, sendo apenas a vida, sacudiu os trilhos e me empurrou para um desvio que não constava no mapa. Afinal, o que é o tempo senão um trem que não espera a gente terminar de arrumar a mala?
Em 2025, tive que aprender que saúde não se resolve só com suor e salada. Tive que ser casulo de mim mesma, entender que o que estava pendente não era só físico — era emoção e a necessidade de olhar para dentro e dizer: “Aqui estou.” E parei de adiar: fiz meus óculos, ironicamente, para enxergar melhor. E, sabe? Ainda há tanto que eu não vejo, embora eu perceba.
Todo fim de ano, tenho três músicas que são mantra: A Lista, de Oswaldo Montenegro, Amor pra Recomeçar, do Barão Vermelho — e O Que É, O Que É, de Gonzaguinha. Três trilhas sonoras para quem tenta controlar tudo: planos até 2027, metas calculadas, vidas previstas como se o futuro fosse uma equação.
É quando recordo o que minha terapeuta diz com a paciência de quem conhece o caos: “Solte. Nada se controla. Ouça: nada se controla. Planeje, claro — mas não tente segurar o vento com as mãos”.
Ao exercitar diariamente esse mantra, quero te dar um conselho — justo eu, que não tenho nada certo para aconselhar. Só sou alguém que já viveu erroneamente em estações onde nem deveria ter desembarcado: a vida não obedece ao nosso desejo de controle, e o controle costuma ser só um jeito sofisticado de chamar medo pelo primeiro nome.
Aqui estou eu, me dispondo a me aconselhar — e a te oferecer — um 2026 espetacular:
Use filtros na alma: não deixe qualquer angústia entrar sem que antes ela se explique.
Não se culpe pela academia abandonada: às vezes, o maior exercício de resistência é manter a sanidade mental enquanto o mundo lá fora parece um caos ensurdecedor de expectativas.
Reaplique esperança depois dos tombos.
Hidrate a alma com gentileza, principalmente nos dias em que for difícil ser leve.
Mime o seu corpo, mas entenda que ele é apenas a casa; não adianta pintar a fachada se as infiltrações estão na alma.
Desconfie do “tudo ou nada”; ele é preguiçoso e dramático.
Aprenda a dizer “não” sem se justificar demais — justificativa em excesso é a culpa tentando virar argumento.
Não transforme planejamento em algema: planeje como quem prepara uma mochila, não como quem desenha o caminho inteiro.
Peça ajuda antes de virar um herói cansado.
Escolha uma coragem pequena por dia.
Trate a sua paz como item essencial, não como prêmio de produtividade.
Seja honesto, principalmente quando ninguém estiver aplaudindo.
Solte as rédeas: a vida é um rio de correnteza própria; se você tentar nadar contra o fluxo o tempo todo, chegará exausto demais para aproveitar a margem.
Aceite que algumas pessoas vão ficar na estação anterior. Não é crueldade — é física: o peso que a gente carrega determina a velocidade da subida.
Honre quem se foi.
Não puxe ninguém pelo braço se o destino deles for outro.
Entenda que a saúde emocional é o verdadeiro suco detox: perdoar um erro antigo emagrece mais que três meses de dieta intermitente.
Cuidado com a fé assimétrica: o milagre é uma encomenda que só chega se encontrar o endereço da sua coragem.
Erre! Erre com a mesma vontade com que você quer acertar: o erro é o rascunho da obra-prima.
Quando a vida trocar os trilhos, não gaste energia xingando a paisagem: ajuste o passo, reduza a velocidade e continue. Porque tem um tipo de vitória quieta — que é simplesmente seguir com dignidade, mesmo quando o roteiro não colabora.
Eu já escolhi a cor da virada. Já escrevi minha carta de gratidão a 2025 e meus votos para 2026. Já busquei todos os patuás possíveis; tenho em mim uma fé que me faz acreditar que 2026 será um dos melhores anos da minha vida.
Mas há uma sombra, sabe? Olho ao redor e penso: quem ficará para trás?
Essa lógica da vida — de seguir e perder gente pelo caminho — é das poucas coisas que nunca se ajeitam em palavras bonitas. A vida empurra, e a gente olha para um lado, para o outro, e não entende por que alguns ficam enquanto outros seguem.
O ano que vem terá Copa, eleição, feriados e lista de material escolar. Terá o cotidiano, esse bicho-preguiça que nos devora. Esta nova estação trará trens incertos, nos quais você terá que embarcar. Terá também trens novos em trilhos gastos, sim, porque muita gente já tentou ser feliz antes de nós, e o caminho está marcado.
Não esqueça que nesta caminhada é necessário algumas coisas soltar – solte.
Disciplina, sim; rigidez, não.

Tenha compaixão, bondade e honestidade.
Honre a si, honre seus sonhos e aqueles que caminham ao seu lado.
Eu não cumpri a promessa da academia, nem a da dieta perfeita — talvez tenha até reduzido o refrigerante, o que já é uma vitória possível. Mas sabe o que é mais bonito? Ganhei planos que não estavam no meu roteiro. Fui saudável no olhar — no cuidado com as relações, na construção de limites e no simples ato de dizer “não”.
Eu me olhei de verdade e, ouso dizer, aprendi a me amar.
Não virei a atleta do ano, mas descobri que consigo me encarar no espelho sem querer quebrar o vidro. Isso é ser saudável. Isso é estar no trilho, mesmo que ele agora atravesse uma estrada que eu não planejei.
2026 merece que tenhamos menos controle, menos cobrança e mais constância.
A vida é o que é, como diz o Gonzaguinha. E o que é, é bonito — precisamente por sermos, autenticamente humanos.
Solte as mãos do trilho. O trem sabe o caminho.
Feliz 2026, com menos embutidos na alma e muito mais amor pelo que ficou — e pelo que virá.

Se puderes ver, seja

E não é que eu, por descuido, fui visitada pela tal da cegueira branca?
E digo: não foi falta de luz — foi exagero dela.

O mundo ficou fosco, espesso, um filtro silencioso sobre a realidade. O corpo desacelerando e a ansiedade puxando o tapete do meu olhar. Uma crise. Daquelas que roubam o eixo, o ar e a nitidez..

Ali, no coração daquela névoa, foi impossível não retomar Saramago em Ensaio sobre a cegueira: aquele lugar onde todos viam e não enxergavam, onde a claridade brutal desorientava mais do que guiava — uma luz que não iluminava, apenas expunha.
Foi ali que, numa lucidez dolorida, percebi há quanto tempo também não via.

Clamei ajuda, tentei agarrar algum foco, algum contorno.
E, no desespero, me perguntei se eu tinha desaprendido a sentir — ou se, na verdade, eu nunca tinha aprendido a não sentir. Talvez aquela claridade fosse exatamente o transbordo dos sentimentos acuados, quietos, acomodados, amedrontados, pedindo para serem rasgados antes de cegarem de vez.

Saramago fala do risco lento de nos tornarmos impermeáveis — de caminharmos pelos dias sem deixar que nada nos toque, andando pelas horas como quem evita qualquer fresta por onde a vida possa entrar. Eu temi isso com um medo mudo, quase infantil.
E, talvez por medo, quis encontrar de novo algum traço que me devolvesse existência.
Não ver algo grandioso — apenas ver alguma coisa.
Algo que me lembrasse que eu ainda estava ali.

Foi assim que comecei a reparar no óbvio.
No valor bruto dos sentimentos.
No susto de ainda ter um coração que sangra, quando o mundo inteiro parece empenhado em mascarar o próprio tremor. Porque, à medida que eu voltava a sentir, percebia o quanto nos empurram ao contrário: vivemos um pacto silencioso contra o afeto.
Como se demonstrar cuidado fosse ingenuidade. Como se gostar fosse imprudente.
Como se sentir fosse um descuido imperdoável.

As pessoas fogem daquilo que as desnuda.
Fogem do espelho que o afeto oferece.

E é aí que a gente se pega dançando essa coreografia exausta do moderno gostar: um ensaio de aproximação seguido de um recuo ansioso; um quase-encontro desmanchado por um silêncio que não declara nada, mas deixa no ar o peso da confissão muda de quem recuou antes da hora.

O mundo nos convenceu de que sinceridade assusta — mas desinteresse, não.
É permitido ser seco. É exigido ser duro. Então a gente se encolhe. Se vigia. Se poda. Finge naturalidade quando o que queria era ser realmente vista.
E ainda chamam isso de maturidade.

Não. Eu me recuso a essa cegueira.

Aceito a minha, a que vem das crises, convivo com ela, mas jamais estarei pronta para aquela outra, a ensaiada, a conveniente, a que escolhe a frieza para não correr riscos.
Eu, eu vivo de afeto: a vida me chama, e eu me ofereço de volta.
Gosto de reparar, gosto de sentir, gosto de olhar o outro como quem olha uma janela aberta. Se isso me expõe, que exponha. Se isso me torna humana demais, que seja exatamente essa a minha defesa.

Saramago escreveu: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
Eu acrescento: Se podes sentir, não te poupes.

O coração é de carne — e é por sangrar que prova que está vivo.
Não vou permitir que o mundo me ensine a frieza.
Nem que a ansiedade me tire da vida a beleza.

Eu vejo — e reparo. Enxergo com lucidez suficiente para não aderir à desumanização disponível. É simples e urgente: eu quero estar. Com tudo o que vejo. Com tudo o que me vê. Na vertigem nítida da claridade de quem repara e enxerga.