A indumentária gaúcha e a herança ancestral

Quem visita a fronteira gaúcha costuma levar mais do que fotografias e recordações na mala, mas também um símbolo da cultura local. Em Uruguaiana, as lojas de artigos regionais, como o tradicional Bolichão da 28, referência na cidade, oferecem ao visitante a oportunidade de conhecer e adquirir a indumentária típica do Rio Grande do Sul (RS), expressão viva da história e identidade do povo sulino.

memória no tecido do tempo

A vestimenta de um povo revela sua trajetória. Cores, cortes e tecidos contam histórias e preservam modos de vida. A indumentária, nome dado ao vestuário tradicional, atravessa gerações quase sem alterações, sem seguir tendências ou ciclos de moda. Resiste ao tempo como traço de identidade coletiva e herança ancestral.

Enquanto a moda é dinâmica, cíclica e influenciada por transformações sociais e pelas grandes semanas internacionais, a indumentária segue o rumo contrário. Não nasce nas passarelas, mas no cotidiano. É raiz, permanência e herança.

No Rio Grande do Sul, chamamos a indumentária de pilcha, Ela é mais do que a vestimenta tradicional, é símbolo de amor à terra e de pertencimento às tradições.

pilchar-se é honrar a tradição

Na fronteira gaúcha a valorização da pilcha vai além da Semana Farroupilha. Ela é usada ao longo do ano, vestindo homens e mulheres em Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), rodeios artísticos e festas tradicionalistas. Na rotina diária os trajes típicos masculinos são usados pelo homem do campo e da cidade.

Nos tempos atuais as mulheres passaram a fazer uso de bombacha, botas, alpargatas, boinas e até chapéus, apesar das peças não fazerem parte da indumentária tradicional da prenda.

Assim como toda herança cultural importante, a indumentária exige cuidado, pois cada peça tem sua história, sua época e seu significado. Misturar elementos de diferentes períodos, como trajes de 1730 com peças de 1900, é considerado um erro cultural.

as quatro épocas da indumentária gaúcha

A pesquisadora Véra Stedile Zattera, em sua obra “Consesul – Adereços Indígenas e Vestuário Tradicional Argentina, Brasil, Chile, Paraguay e Uruguay”, cita quatro épocas dos trajes tradicionais do RS. A primeira é de 1730/1820 quando o estancieiro usa botas fortes de garrão e esporas de prata e a estancieira veste-se com seda e algodão. O peão que usava botas de garrão abertas na frente e a mulher rural, ainda descalça, usava camisa de algodão e vestido de indiana. A segunda época, de 1820 a 1865, o estancieiro ou charqueador, vestia botas de cano alto, até os joelhos. A estancieira trajava roupas feitas de veludo e seda, o peão calçava botas fortes e chiripá-fralda e a mulher rural, saia rodada e blusa com rendinhas no punho e flor no cabelo, já vestindo calçados. Na terceira época, 1865 até 1920 e 1950, o gaúcho citadino usava terno completo e sapatos e a mulher citadina, vestido de seda com corte v e mangas bufantes. O gaúcho fazendeiro, com bombachas e botas fortes, chapéu de feltro e pala e a mulher rural de saia leve e estampada, com blusa de mangas bufantes e rendadas, silhueta marcada por cinto apertado.

A quarta época é de 1865 até a atualidade. O gaúcho usa bombachas de prega e de favos, alpargatas ou botas fortes, chapéu ou boina, camisa listrada ou xadrez, jaqueta de brim ou lã, guaica e poncho. A prenda usa o vestido e saia rodados, com babados e renda, com estampas de flor miúda ou tecido liso. Xale de lã ou seda.

Véra sintetiza, sintetiza esse caráter histórico ao afirmar:

“As roupas tradicionais, ao contrário da moda, aparecem devagar e permanecem por muito tempo. Foram vestes simples, confortáveis, úteis e coloridas, passadas de pais para filhos. No interior, onde a moda não chegava fácil, o vestuário se tornou referência para costureiras e famílias. Por isso, o traje de um pequeno grupo social se torna tradicional: por ser usado por longo período e não seguir a moda vigente.”

a indumentária masculina

O traje social e artístico é formado por bombacha, colete, bota, cinto, chapéu, paletó, lenço, faixa (opcional), pala (opcional) e faca (somente em apresentações). As principais peças são as seguintes: bombacha em cores sóbrias e sem muito enfeite, camisa de algodão, linho ou tricoline, botas de couro preta,marrom ou natural, cinto (guaiaca) de couro, chapéu de feltro ou couro, boina, colete, lenço e faixa.

A indumentária feminina

A pilcha feminina é uma das expressões mais marcantes da identidade gaúcha. Na infância, vestidos de tons suaves, estampas delicadas e cortes simples, rendas, bordadinhos e pequenos enfeites, sempre evitando brilhos e ornamentos excessivos. Os sapatos seguem a mesma linha, em cores neutras e de salto baixo. Na juventude, o traje mantém a essência tradicional, mas ganha um pouco mais de estrutura. Os vestidos continuam longos, com cortes amplos e decotes pequenos, reforçando a sobriedade. As cores seguem harmoniosas e as estampas, discretas. A regra é a mesma, beleza sem exagero, sem pedrarias ou brilho, com meias brancas, nunca cor da pele e sapatos fechados.

Já na fase adulta, a pilcha se torna ainda mais elegante. Saia e blusa ou vestido inteiro aparecem em tecidos lisos ou estampas miúdas, sempre com mangas e decotes comedidos. A prenda adulta pode incluir casaquinhos, boleros, fichús e cintos discretos, mantendo a harmonia do conjunto. Os cabelos podem estar soltos, presos em coque ou trançados, com enfeites simples como flores ou passadores.

Vestir pilcha é transformar memória em presença. É carregar no tecido aquilo que o tempo não apagou, o tradicionalismo.

É importante ressaltar que este artigo não é completo, contém pinceladas sobre a indumentária gaúcha. Quem se interessar pelo assunto e quiser se aprofundar, necessita pesquisar sobre o tema, que é vasto.

vestir pilcha é transformar memória em presença

É carregar no tecido aquilo que o tempo jamais apagou, o tradicionalismo.

É importante ressaltar que este artigo não é completo, contém pinceladas sobre a indumentária gaúcha. Quem se interessar pelo assunto precisa pesquisar, estudar e acompanhar o manual das Diretrizes da Indumentária Gaúcha, do MTG.

Fonte e pesquisa e ilustrações:

Consesul – Adereços Indígenas e Vestuário Tradicional Argentina, Brasil, Chile, Paraguay e Uruguay, de Véra Stedile Zattera

Texto: Giovana Petrocele

Deixe um comentário