Poeta celebra a arte e os dez anos do Luau no Bolicho

A essência da arte de Uruguaiana tem endereço certo na cidade. Um lugar aconchegante onde se respira música e poesia, além da boa comida do local. É palco cultural aberto para experimentações artísticas e apresentações de músicos e poetas locais. Artistas de fora também pisam o tablado do Luau do Bolicho, comandado pelo poeta, músico e compositor Fernando Saldanha, o Nandico.

Neste mês de novembro, o Luau no Bolicho completa dez anos. Ao longo da década, deu origem a edições especiais como o Luautoral (dedicado a composições próprias) e o Luau das Minas, com foco na arte das mulheres. “Perdi a conta de quantos talentos brilharam no nosso palco”, conta o poeta.

Os primeiros versos

A reportagem do Bem-Te-Vi conversou com Nandico para conhecer melhor o poeta do Luau no Bolicho. “Meu primeiro poema foi falado, lá pelos dez anos. Mais tarde, quando a Bisa morreu, foi que o escrevi.” É assim, entre lembranças e ternura, que o poeta relembra o instante em que reconheceu a poesia dentro de si. Um gesto de carinho que se transformou em ofício, não por escolha, “mas por necessidade orgânica”, declara.

A descoberta da poesia veio ainda na infância, quando um tio o chamou de poeta após ouvir suas palavras sobre a bisavó. “Gostei da alcunha por ter sido consequência de um gesto de ternura. Tempos depois percebi que ali eu havia feito minha primeira metáfora consciente”, lembra, contando que neste momento já tinha lido uns livros de poemas e por isso transportou a oralidade para o papel em forma de versos. “Havia reconhecido a poesia. Junto vieram as canções que eu adorava: quem escreveu cada coisa que a gente canta? Posso escrever também! Creio que quando senti o meu olhar aceso pra encontrar arte onde seja, foi que me reconheci poeta. Percebi que a retina também pode dizer”.

Desde então, o poeta nunca mais parou de escrever ou de sentir o mundo profundamente. “Eu lembro de lembrar”, diz. “Por ser o mano mais velho, procurava salvar as vivências pra contar pros meus irmãos depois. Adulto, já é mais difícil seguir sensível a tudo, por isso é importante a presença da criança que fui naquilo que sou.”

Confluência de duas artes e mais

Na trajetória do poeta, a música e a poesia sempre caminharam juntas. “Chegaram juntas confluindo como dois rios, eu o mar”, define. “A poesia tem infinitas musicalidades e a música oferece asas para os voos da poesia.”

“Tudo pode inspirar poesia”, afirmou Fernando. “Neruda provou isso nas suas “Odas Elementales”. Para ele “qualquer objeto pode ganhar vida na ponta da pena, pois os temas estão no ar, as pessoas e a natureza estão sempre lançando motes aos fazedores de arte”. “A criação se dá entre a catarse e a lucidez”, assegura.

Essa fusão se reflete em sua escrita e trajetória artística que tem influência dos poetas da terra. “Biratuxo, Rafael Ovídio, Túlio Urach… Rillo, Sérgio Metz…” revela, enquanto cita a poesia modernista brasileira: “Sobretudo Cecília, Drummond, Bandeira, Vinícius, João Cabral e Quintana. Pessoa e Camões. Castro Alves. A tropicália, a mpb e os discos da Califórnia. Yupanqui e Racionais. Da Idade de Prata, Lorca e Alberti. Neruda e Violeta Parra. Bob Dylan. Gibran. Marília Kosby e Mar Becker, minhas contemporâneas. João Simões”. A biblioteca de oralidades dos seus avós e pais inspiram e são referência para o poeta. “Os sotaques que a estrada me apresentou. A linguagem das ruas e rincões. A literatura dos bares. O vocabulário da pampa”, tudo inspira o artista das palavras poéticas.

Livros, coletivos e saraus

Com livros publicados, Tiro e Queda (2012, Proa), Livro Árvore (2024, Viapampa), Língua de Alpargata (2025, Viapampa) e Artesania do Tempo (no prelo pela Baumart MiniBooks), o poeta também participou de coletivos literários e fanzines, como o Orgiarte, que lançou o LivreTu, reunindo vozes da poesia contemporânea de Porto Alegre.

Os saraus sempre tiveram papel central na sua caminhada: “A poesia libertada do papel através do corpo da gente. Sentir os diferentes ritmos que cada um imprime na sua declamação é algo maravilhoso”, diz. Entre os encontros que marcaram, ele cita o Sarau no Bolicho, o Sarauzito e o Sarau Detox84, este último em parceria com a poeta Marília Kosby.

Um lugar de música, amigos e poesia

Com o poeta e músico Rafael Ovídio, com quem faz o dueto Erva Buena

Fernando lembra do “começo do começo”. ” O Luau no Bolicho teve o seu embrião lá por 2012, nas quintas acústicas no Laço do Amor, em parceria com o Léo Vidal, onde já havia a ideia de um show de abertura e depois palco aberto pra quem quisesse mostrar sua arte”, diz, contando que o objetivo também incluia reunir as rodas de violão dispersas nas praças e calçadas de Uruguaiana. “Um lugar de desinibição, de experimentação artística pra gurizada. No Bolicho confluem musicistas, poetas, cantautoras e cantautores que cruzam pela fronteira, gente que bandeia a ponte. Esse trânsito faz parte da vocação da nossa região”, resume assim, a essência do espaço.

Comemoração dos dez anos

Foto antiguinha de um “Carnaval da Akadimia”, quando Luau era no Laço do Amor

A celebração de 10 anos acontece no dia 14 de novembro, no restaurante Buena Vista (Rua Monte Caseros, 2266), com uma programação especial. “Deixo o convite pra que venham celebrar a arte e a amizade”, conclui o poeta, que segue fazendo da palavra uma ponte entre o sentir e o mundo.

Texto: Giovana Petrocele

Fotos: Acervo Luau do Bolicho

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