Consolidado o primeiro encontro da Funai com indígenas de Uruguaiana

O encontro com representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), foi realizado em 28 de agosto deste ano, na Biblioteca Municipal Luiz Guilherme do Prado Veppo e teve como objetivo conhecer a realidade social vivida pelos indígenas da fronteira e apresentar a legislação que os ampara, destacando seus direitos.

Estiveram presentes o presidente da Associação Basquadê Inchalá do Povo Indígena Charrua de Uruguaiana, Adriano da Silva; a pajé Mari Nildomar; a conselheira estadual indígena Olívia Escalante; a professora Liamara Denise Ubessi, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa); e o historiador Dagoberto Alvim, pesquisador que redescobriu a presença Charrua em Uruguaiana e autor de estudos e livros sobre o tema, além de ser um dos mais ativos defensores da causa indígena.

Comunidade Charrua

Os verdadeiros donos da terra onde Uruguaiana foi erguida ainda vivem entre nós. Espalhados por diferentes bairros da cidade, os povos originários da etnia Charrua, enfrentam a situação de extrema pobreza, sobrevivendo entre a mendicância e a luta por um trabalho que lhes garanta o mínimo de dignidade.

Esta casa representa a maioria dos lares de indígenas da etnia Charrua

Segundo levantamento não oficial realizado por voluntários que apoiam a Associação Basquadê Inchalá do Povo Indígena Charrua de Uruguaiana, a comunidade indígena reúne hoje cerca de 400 pessoas, entre adultos e crianças. Para oficializar esse reconhecimento, a Funai esteve escutando as lideranças Charrua e consolidando, assim, o primeiro encontro oficial entre a instituição e os indígenas locais. Podemos chamar de um marco histórico para Uruguaiana.

Voluntários e indígenas se reúnem constantemente para encontrarem soluções para os problemas que a etnia enfrenta

Território Charrua

De acordo com Alvim, os Charrua , os Charrua, conhecidos como “o povo cavaleiro por excelência”, ocuparam, entre os séculos XVI e XIX, praticamente toda a região sudoeste do Rio Grande do Sul, o oeste do atual Uruguai e parte da província de Entre-Rios, na Argentina. Estavam presentes nas ilhas e margens dos rios Uruguai e Quaraí. “Sua presença foi registrada desde o século XVII por padres jesuítas, viajantes e cronistas”, explica o historiador. Na imagem, um indígena charrua, na aquarela de Jean-Baptiste Debret (1768-1848).

Resistência e expulsão

Recusando a catequização, os Charrua foram rotulados como “infiéis” pelos jesuítas. “Eles nunca se submeteram pacificamente aos brancos, resistindo muitas vezes à custa da própria vida na defesa de sua liberdade e de suas terras”, afirma Alvim.

A expulsão começou entre 1814 e 1821, em consequência da distribuição de sesmarias. Privados de suas terras e da caça, restou-lhes apenas a submissão ao trabalho nas estâncias. Ali, tornaram-se exímios peões, moldando as tradições campeiras.

O nascimento do gaúcho

Nesse mesmo período, mulheres indígenas se uniram a portugueses e espanhóis. Dessa miscigenação nasceu a figura do gaúcho, herdeiro direto da resistência e da cultura indígena.

Extinção e sobrevivência

A partir da década de 1950, os Charrua foram considerados oficialmente extintos em Uruguaiana, o que os excluiu de qualquer política de assistência.

Obra de arte Vamaica e os últimos Charrua, em 1833

Foi apenas em 2016 que Dagoberto Alvim identificou remanescentes vivendo na periferia da cidade, em condições de extrema pobreza. Desde então, o grupo vem se reorganizando e lutando pelo reconhecimento étnico. “Hoje, eles são os últimos cavaleiros entre todos os povos indígenas que ocuparam o sudoeste gaúcho. Perderam a língua, mas mantêm vivas oito manifestações culturais”, ressalta o pesquisador.

Reparação histórica

Alvim lembra que “a história do povo Charrua foi marcada por massacres, exploração, discriminação e marginalização” e reforça: este é o momento da sociedade fazer a reparação histórica que lhes é devida.

Texto: Giovana Petrocele

Pesquisa: Uruguaiana – Terra Charrua, autoria de Dagoberto Alvim

Fotos: Associação Basquadê Inchalá do Povo Indígena Charrua de Uruguaiana

Deixe um comentário