Em entrevista ao Bem-Te-Vi, Serena Poch, a escritora e poetisa uruguaianense, fala sobre sua da trajetória literária, feita de poesias, contos e saraus, contando como transforma sentimentos em palavras.
Para a autora de Proibido Enlouquecer, a poesia chegou cedo, quando ainda era criança e começou a sentir o mundo. “Acho que virei poetisa a partir do momento em que me sentia nas coisas que observava, nas músicas que ouvia, quando eu absorvia e era absorvida”, diz. Hoje, ela prefere se definir não como escritora consumada, mas como “uma pensadora livre que tenta traduzir e ser filtro das coisas que vivencia e que a inspiram.”

A voz que moldou seu mundo
A mãe foi a primeira grande referência. “Minha mãe sempre leu para mim histórias prontas, poesias e até coisas que ela mesma criava. Eu visualizava o que ouvia, mesmo antes de aprender a ler. Adorava desenhar tudo isso, as poesias, histórias em quadrinhos. E sempre ouvindo música, criando histórias mentais.” O contato íntimo com a dança, a música e as artes plásticas ajudaram a moldar a artista visual e poetisa que ela é hoje. “A introspecção também faz transbordar o que sinto nessas expressões escritas”, conta.

Sentir com a alma, profundamente
Quando perguntada sobre inspirações, Serena lista nomes que mexeram com seu sensorial. Cruz e Souza foi um choque inicial, “mesmo sem compreender muitas palavras, eu sentia com a alma que aquilo era incrível”. Também menciona Augusto dos Anjos, Edgar Allan Poe e Mary Shelley. Entre as obras contemporâneas que integram sua biblioteca e leituras, estão Clarice Lispector, Hermann Hesse, Kafka, Allan Moore e Neil Gaiman. “Eles são muito estimulantes. Tem a profundidade que um dia quero alcançar”, confessa.
Seu repertório é vasto e cíclico: “No momento ando lendo muito Fernando Pessoa. Sou de fases. Charles Baudelaire, Goethe, Cecília Meireles, Álvares de Azevedo, Florbela Espanca, Cora Coralina, Vinícius de Moraes… todos marcam muito.”
Processo criativo intuitivo e noturno
Serena descreve sua escrita como essencialmente intuitiva. “Não sei planejar exatamente o momento de sentar e escrever. Às vezes estou deitada e, às três da madrugada, surge uma ideia ou frase — aí escrevo, desenvolvo, e quando vejo já é um poema ou um conto. Mas uma coisa é certa, eu gosto de escrever ouvindo música.”
Um conto por noite e a origem de um livro
Lançado na Feira do Livro de Uruguaiana de 2024, no teatro Rosalina Panfolfo Lisboa, Proibido Enlouquecer nasceu de madrugadas de escrita solitária. “Em 2022, nas férias de inverno, pegava o celular, botava uma playlist e escrevia nos rascunhos do Gmail. Foi assim que criei o livro — um conto por noite. Parecia que eu estava em companhia daqueles personagens tão fortes, sensíveis e loucos. Quando terminei, achei que valia compartilhar.” A obra reúne dez contos em que personagens esbarram em situações-limite, “por isso cada história é tão envolvente”, dizem os leitores que a avaliaram.

O conto preferido de Serena no livro é Bruxas Aviadoras, inspirado na história real das mulheres aviadoras soviéticas da Segunda Guerra Mundial. “Só de imaginar o que sentiram, muitas delas ainda adolescentes, em meio a uma violência tão total, me comove. A guerra é uma dor universal; ninguém está isento de vivê-la.”
Entre poesias e saraus
Serena participou da coletânea A Química das Palavras (2015), com dez poesias na antologia que reuniu jovens escritores de Uruguaiana — um convite que a ajudou a desengavetar poemas e perceber que escrever aproxima. Depois veio o projeto Afrodites, com contos de autoras locais, e a presença constante em saraus, muitos organizados pela amiga Estela Menezes.

Um trecho para sentir
A poetisa admite ter fases de apreço e afastamento das próprias produções. Hoje, privilegia versos que falam de estoicismo e finitude — uma reflexão sobre a brevidade humana. Ela compartilha trechos que explicam seu momento criativo:
ENTROPICA
BRISA CARREGA-NOS NO RELATIVO TEMPO. O QUE HÁ MUITO ALÉM DESSE INSONDÁVEL, NÃO PRECISO MAIS SABER… MAS QUERO
SE RELÂMPAGOS SOMOS, AGUARDEMOS O ABISSAL SEM PRESSA…
O TRAJETO, A ESMAGADORA BUSCA DE ÊXTASES, UM PERTENCIMENTO, INEXISTENTE POIS CONEXÕES INSOLITAS NOS LIGAM AO QUE JULGAMOS SER DO QUE NÃO QUEREMOS SER… EGOS…
ACALMEM-SE PÓS ESTELARES…
APENAS PRECISO RESPIRAR E MANTER A CURIOSIDADE. É O QUE NOS GUIA PRIMITIVA, SELVAGEM… É O SCRIPT DESSA MATRIX.
E mais:
Sou fusão de tudo, pedaços de universo,
Átomos de coisas e de gente,
Química e ideias da mente,
Do plano o qual sou imerso…
O que vem pela frente
Serena segue criando seus poemas e contos, apesar de admitir um bloqueio na hora de pensar em publicar novamente. “Escrevendo livremente eu não me coloco muitos limites. Mas, de repente, surge uma oportunidade e aí tenho material para minha contribuição no mundo das letras.” Enquanto isso, a voz de Serena Poch continua a se afirmar: feita de leituras, de noites de criação e da capacidade de transformar observação em palavras.
Texto: Giovana Petrocele
Fotos: Divulgação

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